• 24ago

    8:17Três príncipes nos campos de trigo do Abranches

    por Michelle Stival da Rocha, da assessoria de Comunicação da Câmara Municipal de Curitiba

    Em 1884, dois colonos que ceifavam trigo em um campo no Abranches, avistaram três meninos que, vindo em sua direção, pediram-lhes algumas espigas do cereal. Nem imaginavam os camponeses – e pense na surpresa quando descobriram – que as três crianças eram príncipes, netos de Dom Pedro II. A data era 4 de dezembro e os infantes haviam chegado cinco dias antes a Curitiba, acompanhados de seus pais, princesa Isabel e Conde d’Eu, para conhecer a cidade e fazer a primeira viagem oficial da estrada de ferro, vindos de Paranaguá.

    O campo em que D. Pedro, D. Antonio e D. Luís passeavam tratava-se de uma colônia de poloneses provenientes da Prússia Ocidental. Os colonos estavam ali a pouco tempo (desde 1873), após terem conseguido autorização do então presidente da Província do Paraná, Frederico Abranches, para se instalarem a “seis quilômetros” de Curitiba, num espaço estabelecido pelaCâmara Municipal. Outros bairros, como Pilarzinho, Santa Cândida, Augusta e Orleans, também foram povoados por poloneses, tornando a capital, a maior colônia destes imigrantes no Brasil. Tudo isso porque o imperador havia adotado uma política de “portas abertas” aos estrangeiros, para minimizar a falta de mão de obra e a escassez de alimentos – a propósito, o bairro Orleans recebeu este nome em homenagem ao Conde d’Eu, Luíz Felipe de Orléans.

    Naquela manhã de 1884, a família imperial chegou à colônia às 7h30. “Os colonos aguardavam os augustos visitantes, no adro da igreja que alli ha, em companhia do padre Kuvonski, diretor e parocho na colonia, que é composta de mais de 1,500 pessoas, entre homens, mulheres e crianças, todos polacos e pertencentes á Prussia”, narrou o jornal Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro, que enviou um correspondente especialmente para acompanhar a viagem dos príncipes.

    Lá, participaram de uma missa e ouviram músicas típicas: “á  sahida, os colonos dirigiram um cantico a Suas Altezas, cantando em côro, depois d’isso, o hymno polaco, cantando com eles o Sr. conde d’Eu, que declarou já ter ouvido este hymno na Cracóvia uma vez, e que alli o povo que o ouve e os que o cantam, levantam-se para provar que a Polonia não morreu ainda – o que tambem acreditam. O Sr. conde d’Eu esteve alguns dias na Polonia, e, como tem grande aptidão para as línguas, conseguiu aprender aquelle idioma.”, relatou o correspondente – vinte anos antes, guerras externas travadas pelo exército prussiano impulsionaram a imigração de aldeães de Siolkowice, uma pequena aldeia próximo a Opole, no Sul da Polônia, para as terras brasileiras.

    Chama a atenção a descrição que o jornalista carioca faz sobre a aparência dos anfitriões, quase como se não estivessem no mesmo Brasil. “As mulheres n’esta colonia usam todas umas toucas, parecidas com as que se põe nas crianças recém-nascidas, e que lhes dão uma apparencia muito comica.  Os homens, e mesmo as mulheres, são feios, predominando o cabello preto em umas cabeças chatas como a dos nossos patricios do Ceará. São de boa indole, muito trabalhadores e sorumbaticos. Custa-se a arrancar uma palavra  d’estes polacos, que têm physionomia de quem pensa muito na vida pela certeza da morte.”

    Ele relatou ainda que a colônia Abranches era a que ficava mais perto “da cidade de Curityba”, e que ali se cultivava milho, trigo, centeio e batatas. “Muitos outros cereaes alimentícios, e gado suíno, muar e cavallar; não é a colonia mais prospera, mas é uma das melhores da provincia. Em caminho para ella avistam-se grandes campos cobertos de plantação, e todos os lotes de terra bem aproveitados.” Por esta descrição, é possível perceber quão rural e diferente era a região norte da cidade da atualidade.

    “Em regresso, os principes D. Pedro, D. Luiz e D. Antonio, avistando em um grande campo dois colonos, que ceifavam trigo, dirigiram-se a elles e pediram algumas espigas d’aquelle cereal, sendo satisfeitos pelos colonos, que não sabiam quem eram aquellas crianças, o que só mais tarde conseguiram, ficando por isso lisongeados”, continuou.

    Naquele dia, princesa Isabel escreveria aos pais: “Nas colônias Abranches, Santa Cândida, Pilarzinho e Lamenha, todas polacas e perto de Curitiba, há umas 250 famílias. A única coisa que os colonos se queixam é da exiguidade do lote que destinaram a cada família, no que, com efeito, pareceu-nos terem eles razão”.

    Notas sobre os alemães
    Os alemães, que também tiveram forte influência cultural em Curitiba, da mesma forma foram alvo de observação por parte dos visitantes, principalmente do correspondente carioca. “Nas colonias, os Srs. Allemães chegaram a afinação de governar e dar leis; e a língua que n’elas se ensina, é a d’aquella nacionalidade, porque o governo não póde com elles, que ás vezes nem conhecem a auctoridade policial e só prestam obediência ao maioral das colonias, que é um rei pequeno.”

    “Por toda parte, em todas as ruas, ás janellas de todas as casas, parados ás esquinas, encontram-se indivíduos de cachimbo na bocca, mãos nos bolsos e bonet; não é preciso perguntar, porque se lhe dirigirem a palavra em portuguez, não respondem: – é allemão. E ser-se allemão em Curityba, ou falar um pouco o idioma, já se é alguma cousa.”

    Referências Bibliográficas:
    Edição 352 da Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro – quinta-feira, 17 de dezembro de 1884, pg. 2 (leia aqui).

    Edição 355 da Gazeta de Noticias do Rio de Janeiro – Sábado, 20 de dezembro de 1884 (leia aqui).

    Imigração polonesa no território paranaense: Aspectos culturais e distrição espacial das colônias polonesas no espaço geográfico paranaense. Antonio Leocadio Cabral Reis e Marcos Aurélio Tarlombani da Silveira (leia aqui).

    Identificação de Conflitos pelo Uso e Ocupação do Solo Urbano na Região das Nascentes do Rio Belém, Município de Curitiba, Paraná  HARRY ALBERTO BOLLMANN (PUCPR), DENIS ALCIDES REZENDE (PUCPR) e RAFAEL ALEXANDRE DE FIGUEIREDO GOMES (PUCPR) (leia aqui).

    Boletim Especial do Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico Paranaense. Comemorativo ao Sesquicentenário da Independência do Brasil 1822-1972. (Volume XV, ano 1972).

    Fenianos, Eduardo Emílio. Orleans, Riviera, Augusta e São Miguel. Curitiba: UniverCidade, 2000. (Coleção Bairros de Curitiba; v. 24).

    Leia também:

    Uma princesa nos trilhos da nossa história

    A família imperial pelas fábricas de erva mate de Curitiba

    Princesa Isabel e um retrato dos prédios de Curitiba em 1884

     

  • 18ago

    TRIBUNA/PR 

     

    Celso de Mello, do STF, suspende processos que poderiam afastar Deltan da Lava Jato

     

     

    O ministro Celso de Mello, do STF (Supremo Tribunal Federal), suspendeu nesta segunda-feira (17) o julgamento de dois procedimentos disciplinares contra o procurador Deltan Dallagnol, coordenador da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba.

    Os julgamentos seriam realizados nesta terça-feira (18) pelo CNMP (Conselho Nacional do Ministério Público).

    Um dos processos que seria analisado foi apresentado pelo senador Renan Calheiros (MDB-AL) e o outro, pela senadora Kátia Abreu (PP-TO). As decisões representam mais uma vitória para a Lava Jato no STF.​

    O procedimento que contesta a apresentação da denúncia contra o ex-presidente Lula em um powerpoint segue na pauta do conselho.

    Mais cedo, nesta segunda, o ministro Luiz Fux já havia suspendido os efeitos da sanção de advertência imposta a Deltan em novembro do ano passado.

    No despacho, Celso de Mello afirmou que é “inaceitável a proibição ao regular exercício do direito à liberdade de expressão” membros do MP e afirma que limitar esse direito “revela-se em colidência com a atuação independente e autônoma garantida ao Ministério Público pela Constituição”.

    O ministro ressaltou que o direito de criticar, de opinar e de dissentir, independentemente do meio de veiculação, “representa irradiação das liberdades do pensamento, de extração eminentemente constitucional”.

    O ministro determinou a suspensão dos procedimentos até o julgamento definitivo das ações em curso no Supremo sobre o caso.

    O ministro classificou como “essencial” proporcional a livre circulação de ideias e ressaltou que essa prerrogativa vale tanto na esfera individual quanto coletiva.

    “É por isso que se impõe construir espaços de liberdade, em tudo compatíveis com o sentido democrático que anima nossas instituições políticas, jurídicas e sociais, como o Ministério Público”, diz.

    Segundo o ministro, a autonomia do MP é temida por muitos. “Sabemos que regimes autocráticos, governantes ímprobos, cidadãos corruptos e autoridades impregnadas de irresistível vocação tendente à própria desconstrução da ordem democrática temem um Ministério Público independente”, escreveu.

    Na decisão proferida mais cedo por Fux, o ministro havia suspendido os efeitos de uma advertência imposta em novembro do ano passado ao coordenador da força-tarefa da Lava Jato.

    Na prática, o despacho de Fux havia tornado mais distante o afastamento do procurador da chefia da Lava Jato, uma vez que o histórico do profissional pode ser considerado um agravante para o conselho.

    A decisão representa uma vitória para a operação e indica como a ascensão de Fux à presidência do STF, em setembro, pode dar uma sobrevida à Lava Jato, que tem sofrido derrotas tanto na PGR (Procuradoria-Geral da República) quanto no Supremo.

    No caso de Renan, o parlamentar questiona a conduta do procurador por ter feito críticas no Twitter ao parlamentar. Segundo o senador, as declarações prejudicaram a campanha dele à presidência do Senado no ano passado.

    Já Kátia Abreu acusa Deltan de ter tido ganhos econômicos de forma ilegítima ao ser remunerado para realizar palestras.

    Em entrevista à CNN na noite desta segunda-feira (17), Deltan disse que agiria de modo diferente em relação ao powerpoint usado para apresentar a denúncia contra o ex-presidente Lula, em 2016.

    “A forma de apresentação eu faria diferente para evitar a polêmica e as críticas que geraram. A questão é que não rendeu bons frutos, rendeu discussão desnecessária”, disse.

    Ele fez a mesma avaliação sobre os comentários em que lamentava a possível vitória de Renan para o comando do Senado. Apesar disso, o procurador disse que agiu dentro da lei em todas as ocasiões e que não merece ser punido.

    Segundo ele, em nenhum dos procedimentos em curso no CNMP estão caracterizados “fatos graves e comprovados”, requisitos exigidos para determinar o afastamento de um membro da carreira.

    Deltan afirmou que o julgamento no CNMP indicará o que integrantes do Ministério Público podem “esperar do futuro, se poderão seguir atuando de modo combativo ou se vão ter que passar a temer represália no seu trabalho”.

    O caso do powerpoint contra o ex-presidente Lula segue na pauta do conselho, mas não há certeza se a análise de fato acontecerá nesta terça. O caso está na pauta do CNMP há meses e, até agora, não foi chamado a julgamento pelos conselheiros.

  • 05ago

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