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  • 22set

    ÉPOCA

    O PÚLPITO como palanque Marina em encontro com evangélicos, na campanha de 2010. Ela é a preferida dos fiéis (Foto: Frankie Marcone/Futura Press)

    Vários sinais contundentes mostraram, no fim de agosto, como as questões morais, de cunho religioso, passaram a guiar os políticos brasileiros – com uma força que só encontra paralelo, entre as grandes democracias ocidentais, com o que ocorre hoje nas campanhas políticas nos Estados Unidos.

    Um dia depois de lançar seu programa de governo, a candidata Marina Silva (PSB), hoje favorita a conquistar o Palácio do Planalto, depois de pressionada nas redes sociais pelo pastor Silas Malafaia, um dos líderes da Assembleia de Deus, voltou atrás numa série de compromissos.

    O primeiro dizia respeito à união civil homossexual. Marina é a favor – e reafirmou isso em vários programas de televisão ao longo da semana.

    Mas não queria que a união civil constasse, em seu programa de governo, com o nome de “casamento”, um sacramento religioso. O segundo ponto dizia respeito à lei que torna a homofobia um crime, defendida na primeira versão de seu programa.

    Essa lei já foi rejeitada no Senado. Religiosos alegaram na ocasião que ela não dizia com clareza se dogmas pregados nos templos, sem intenção ofensiva, poderiam ser classificados como “homofobia”.

    O poder do voto evangélico (Foto: época )

    Com a atitude, Marina ganhou o aplauso dos religiosos. “Ela teve coerência. Tem coisa que o candidato promete e não dá para fugir”, diz Malafaia.

    “Tínhamos dificuldades para falar com ela, porque ela dava respostas para agradar a gregos e troianos”, afirma o pastor Marco Feliciano, deputado federal pelo PSC de São Paulo.

    Feliciano é execrado pelo movimento LGBT, por ter defendido, na presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, o projeto da “cura gay”.

    “No momento em que Marina teve de se decidir de fato, ela se colocou como uma cristã de verdade”, diz ele. Marina atribuiu o vaivém a um “erro no processo de editoração” de seu programa.

    Percebendo um flanco para atacar contradições da rival, a presidente Dilma abraçou a defesa da lei contra a homobofia – embora ela tenha  recuado na decisão de distribuir material didático a favor da tolerância sexual, tachado como “kit gay” pelas lideranças evangélicas.

    O recuo de Marina choca os marineiros “sonháticos”, mas, de um ponto de vista estritamente eleitoral, faz sentido. Embora conserve o título de país com o maior número de católicos do mundo, o Brasil avança com rapidez para se tornar uma nação mais evangélica.

    Em dez anos, os evangélicos passaram de 15,4% da população para 22,2%, um total de 42,3 milhões. Com 22% do eleitorado, somam hoje quase 27 milhões de votos.

    Embora Marina Silva não seja da bancada evangélica e, em sua carreira política, tenha sempre defendido valores laicos, a maioria dos evangélicos vota nela – 43%, contra 32% de Dilma, segundo a pesquisa do Ibope divulgada na semana passada.

    Um outro dado da mesma pesquisa, que passou despercebido, explica ainda melhor por que é tão importante para um candidato à Presidência não se indispor contra os valores religiosos.

    De forma geral, os candidatos evangélicos se opõem – com diferentes nuances de tolerância – ao casamento gay, a mudanças na lei da interrupção da gravidez e à liberação das drogas.

    A pesquisa do Ibope mostrou que a maior parte dos brasileiros, independentemente de religião, pensa como os evangélicos: 79% são contra o aborto; 79%, contra a liberação da maconha; e 53%, contra o casamento gay.

    A mesma pesquisa revela que 75% dos brasileiros são a favor do Bolsa Família. Isso significa que, se é majoritariamente a favor de políticas sociais, a sociedade brasileira é conservadora em temas ligados a família e comportamento.  

    A influência crescente dos evangélicos deverá ser ainda mais decisiva nas eleições deste ano por causa da chegada de Marina, missionária da Assembleia de Deus, à condição de protagonista da disputa.

    Com sua religiosidade, seus trajes comportados, seu cabelo comprido disfarçado com um coque e seus discursos em tom de pregação, seduz os evangélicos e seus pastores, que sonham com um irmão de fé na Presidência.

    “Existe um projeto de poder dos pastores pentecostais: aumentar a bancada dos evangélicos e chegar à Presidência”, afirma o cientista político Cesar Romero Jacob, da PUC do Rio de Janeiro, estudioso das eleições presidenciais.

    Se eleita, Marina será a primeira presidente do país filiada a uma denominação pentecostal, o ramo mais numeroso dos evangélicos (o Brasil teve antes dois presidentes protestantes de outras denominações: o presbiteriano Café Filho e o luterano Ernesto Geisel).
     

    AJOELHOU E REZOU Dilma, na inauguração do Templo de Salomão, da Universal. Em busca do voto evangélico, ela pede orações (Foto: Divulgação)

     

    A identidade religiosa de Marina a ajuda a obter votos entre os evangélicos. Pesquisa do Ibope mostra que, em duas semanas, Marina foi quem mais cresceu no segmento: de 37% para 43% do eleitorado evangélico. 

    Dilma foi de 27% para 32% e Aécio caiu de 17% para 10%. Segundo o Ibope, se o segundo turno fosse agora, Marina seria eleita presidente graças, sobretudo, ao voto dos eleitores evangélicos.

    Na média, 53% dos eleitores de denominações evangélicas declaram voto em Marina, ante apenas 33% que dizem preferir Dilma. Entre os católicos, Marina e Dilma aparecem empatadas com 43% na simulação de segundo turno.

     

    Brasil conservador  (Foto: Época)

    A despeito de os católicos serem o maior contingente do eleitorado (63%), seu impacto no resultado da eleição é mínimo como grupo religioso. Não é o caso dos evangélicos. Sua força eleitoral se deve à maior uniformidade do voto. Não é regra, mas, em geral, “crente vota em crente”.

    “Os evangélicos não querem saber da independência do Banco Central ou não. Eles votam no irmão”, diz Jacob, da PUC-Rio.

    Os evangélicos não votam como os católicos, espíritas, judeus, umbandistas. Demonstram com maior ênfase sua preocupação com os valores dos candidatos e as questões morais. “Os evangélicos obedecem mais às indicações de suas igrejas de votar nos pastores”, afirma o cientista político David Fleischer, da Universidade de Brasília.

    A maior demonstração de que esse tipo de orientação é seguida se deu na eleição de 2002. No primeiro turno, Luiz Inácio Lula da Silva e José Serra foram os candidatos à Presidência mais votados, com 46,5% e 23,2% dos votos, respectivamente.

    O evangélico Anthony Garotinho, da Igreja Presbiteriana, ficou em terceiro, com 17,9%. Ao estudar o voto dos evangélicos para seu pós-doutorado na Universidade de São Paulo, a pesquisadora Simone Bohn encontrou um cenário bem diferente.

    “A maioria dos evangélicos (51,3%) afirmou ter votado em Garotinho”, diz Bohn em sua tese. Na disputa de 2010, o mesmo ocorreu com Marina, na ocasião no Partido Verde (PV).

    A unidade dos evangélicos no Brasil se reflete também na composição do Congresso. A bancada evangélica tem hoje 74 parlamentares, o ápice na história.

    Estivessem todos num partido, os evangélicos formariam a terceira maior legenda no Parlamento, atrás apenas de PT e PMDB.

    Nestas eleições, eles acreditam que poderão crescer ainda mais. “Esperamos eleger, no mínimo, 80 candidatos. Mas podemos chegar até a 120”, diz Malafaia.

    Com os fiéis transformados em clientela eleitoral cativa, não é à toa que todos os candidatos assediam as igrejas evangélicas em busca de apoio. Dilma articula sua aproximação desde antes da chegada de Marina ao pleito.

    Em julho, uma reunião no Palácio da Alvorada definiu que ela teria uma agenda de encontros dela com lideranças evangélicas. Menos de uma semana depois, Dilma estava ao lado de Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus, inaugurando o monumental Templo de Salomão, em São Paulo.

    Passaram-se mais dez dias – e lá estava Dilma na Assembleia de Deus do Brás, novamente em São Paulo, num encontro de mulheres, pedindo orações. “Acredito naqueles que creem. Acredito no poder da oração. Não se esqueçam de orar por mim. Todos os dirigentes deste país dependem do voto do povo e da graça de Deus. Eu também”, disse.

    No começo de julho, o candidato do PSDB, Aécio Neves, também visitou a Assembleia de Deus. O pastor José Wellington, presidente da Convenção Geral das Assembleias de Deus, não declarou apoio a ele, ao contrário do que fez com José Serra em 2010.

    Apenas o levou a uma reunião com outros integrantes da igreja. No final de julho, Aécio compareceu à Celebração de Inverno do Ministério Sara Nossa Terra.

    Foi recebido pelo bispo Robson Rodovalho. Na semana passada, Rodovalho oficializou apoio a Marina. Ciente das dificuldades de capturar o voto evangélico, por causa de Marina e do candidato do PSC, o Pastor Everaldo, Aécio aposta mesmo no eleitorado católico.

    Para seduzir os evangélicos, quanto mais conservador nos costumes o candidato se mostrar, maior é a chance de conquistar votos.

    “Nossa principal exigência é que o candidato esteja afinado com a defesa da família tradicional, a proibição do aborto e do casamento de pessoas do mesmo sexo”, afirma o pastor Lélis Washington Marinho, presidente do Conselho Político da Convenção Geral das Assembleias de Deus.

    É o maior e mais antigo ramo das Assembleias de Deus no Brasil, de que Marina faz parte (esse ramo diz ainda não ter escolhido candidato).

    No caso do aborto, Marina diz ser contra e defende um plebiscito para decidir a questão. Com essa posição, evita se indispor com eleitores de diferentes posições, ao mesmo tempo que aposta que o conservadorismo da maioria derrubará nas urnas a legalização.

    Parece ambíguo, mas é uma opção inteligente. Numa eleição disputadíssima, nenhum candidato poderá errar na conquista dos evangélicos.

    Publicado por jagostinho @ 14:51



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