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  • 14mar

    carlos-brickmannCARLOS BRICKMANN/DIÁRIO DO PODER

    O caminho do dinheiro

    Alguém acredita que o chefão do tráfico more numa casa até melhorzinha, mas no meio de uma favela, sem saneamento básico, sem serviços públicos, com esgoto correndo nas proximidades, convivendo com mau cheiro, ratos e baratas, pisando na poeira ou na lama?

    E ande com aquela bermuda mulambenta, sem camisa, calçando havaianas? Que não faça uma viagem sequer de turismo, que jamais vá a um restaurante de luxo, que se contente com as mulheres da vizinhança – e, aliás, sabendo que só as tem por ameaças e uso da força bruta?

    Pode ser que isso exista – mas é improvável. No mundo inteiro, os grandes chefes criminosos vivem no luxo, gastando à vontade para satisfazer seus caprichos, por extravagantes que sejam. Por que, no Brasil, seriam tão espartanos?

    O colega de Observatório Luciano Martins Costa cita o juiz Walter Fanganiello, para quem uma operação policial espetacular é apenas um espetáculo.

    Tem razão: apreende-se uma grande quantidade de droga, que depois, segundo nos informam, é incinerada, e mesmo assim o consumo se multiplica no país.

    O Conselho Internacional de Controle de Narcóticos da ONU informou, há menos de uma semana, que o consumo de cocaína dobrou no Brasil em menos de dez anos; e hoje já o quádruplo da média mundial.

    Os meios de comunicação adoram cobrir as grandes operações. O perrelaço, operação em que o helicóptero pertencente ao deputado Gustavo Perrela, do Solidariedade, foi apreendido com meia tonelada de cocaína, valeu muitas matérias.

    A apreensão de 300 quilos de cocaína na sede da escola de samba de uma torcida organizada do Palmeiras também valeu muitas reportagens. Faltou responder a duas perguntas fundamentais, daquelas que deveriam estar no lead:

    1- O piloto do deputado Perrela recebeu a cocaína de alguém, com a incumbência de levá-la a algum lugar. Quem a entregou? Em que lugar a entregaria, e para quem?

    2 – O pessoal de torcidas organizadas não chega a pertencer a elites econômicas. Quem tinha comprado tanta cocaína? De quem?

    Cocaína, caro leitor, é produto caro, pago a vista, em dinheiro. A inadimplência costuma ser punida com a morte. Ou seja, o comprador sabe de quem comprou.

    Se a Polícia não acha os responsáveis, que tal algum veículo de comunicação designar bons repórteres para investigar o caso?

    E não é preciso correr os riscos do grande Tim Lopes. Seguindo as sábias instruções do Garganta Profunda aos repórteres que revelaram o caso Watergate, “siga o caminho do dinheiro”.

    É aí que está o veio da reportagem – aliás, se tivéssemos policiamento competente, seria este o grande veio da investigação.

    Prender um traficante, apreender uma ou duas toneladas de drogas, expulsar drogados de uma determinada região, tudo isso equivale a matar formigas.

    É bobagem: quem quiser acabar com as formigas tem de alcançar a rainha do formigueiro. E, no caso, é seguir o caminho do dinheiro, para estrangular financeiramente o esquema e prender os grandes articuladores, os organizadores do tráfico.

    O caminho da política

    E há outro excelente caminho para boas matérias – um caminho difícil porque está totalmente minado por fundamentalismos ideológicos, mas que é preciso desbravar.

    Quando Evo Morales chegou à Presidência da Bolívia, a produção de coca do país tinha sido muito reduzida, com a colaboração da DEA (Drug Enforcement Agency) americana.

    Nada que tenha afetado o abastecimento internacional: outros países ampliaram a produção de cocaína e se responsabilizaram pelo fornecimento aos grandes mercados, especialmente o americano.

    Evo permitiu um grande aumento na produção boliviana de coca. De 25 toneladas de pasta-base de cocaína por ano, quando tomou posse, a Bolívia passou a 300 toneladas anuais.

    E surgiu um problema sério: os mercados tradicionais da Bolívia já tinham novos fornecedores. Houve então amplo trabalho para transformar o Brasil, antes apenas um caminho para o escoamento das drogas, em destinatário final.

    Isso explica o rápido crescimento do consumo, percebido pela ONU.

    É reportagem cara, que exige viagens, exige pesquisa documental, exige uma imensa paciência com os patrulheiros que acusarão o repórter de ser da zelite e de desconhecer o importante aspecto cultural do cultivo da coca na Bolívia.

    OK, o argumento pode ser ótimo – mas o que se discute é o uso da cocaína no Brasil, não a importância cultural do cultivo da folha de coca na Bolívia.

    E, claro, é essencial discutir como enfrentar a epidemia de drogas. A tática de guerra, hoje utilizada, mostrou-se exigentíssima em recursos e em sangue, e deu resultados pequenos.

    Haverá outra maneira de enfrentar o problema? Será a liberação das drogas uma resposta à criminalidade, que extrai da ilegalidade os fundos que a sustentam? Haverá alguma solução diferente dessas?

    É outro bom tema de reportagem, até agora tratado apenas com declarações pró e contra.

    Mas como, numa época de recursos contados, partir para reportagens de alto custo?

    Publicado por jagostinho @ 18:56



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