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  • 27jan

    11130415CARLOS HEITOR CONY –  membro da Academia Brasileira de Letras desde 2000. Sua carreira no jornalismo começou em 1952 no “Jornal do Brasil”. É autor de 15 romances e diversas adaptações de clássicos.

     

    Testemunhei de corpo presente, em Paris, durante o Salão do Livro, em 1998, o fenômeno literário e editorial de nosso tempo. Paulo Coelho atingiu um grau de popularidade, consumo e respeito internacional que nunca teve paralelo na vida cultural brasileira.

    São muitos os que ainda torcem o nariz para ele, e não apenas por causa de seu sucesso, mas por considerarem a sua obra uma literatura menor, mercadológica, subliteratura enfim.

    Não é assim que eu vejo o seu caso. Tornei-me seu amigo pessoal há pouco tempo, antes, tratávamo-nos com deferência e até carinho, nosso diálogo era circunstancial, ele tinha um mundo próprio, eu tinha o meu, não eram paralelos, mas não chegavam a ser antagônicos.

    Trocávamos 50 palavras. Palavras cordiais, de respeito mútuo. Mas há muito tenho uma explicação para o seu sucesso. Vamos lá.

    O século 20 começou com duas utopias que pareciam resolver todos os problemas do corpo e da mente. Marx e Freud, cada qual no seu campo, defecaram regras que contaminaram milhões de seres humanos, preocupados ou com a justiça social ou com a justiça para consigo mesmo, através da psicanálise.

    Acontece que o século passado ficou mesmo no passado, e os dois poderosos totens desabaram: tinham pés de barro.

    Marx não resistiu ao fracasso dos regimes instaurados sob sua tutela –embora sua visão da história e da sociedade, em si mesma, continue como um sonho possível que a humanidade ainda perseguirá, fazendo as correções de rumo ditadas pelo conceito maior da liberdade individual.

    Freud, ainda em vida, já era contestado, fragmentado, seus seguidores abriram cismas, rebeliões, a doutrina original permanece apenas como excelente ensaio literário, cada vez com menos caráter científico.

    Da derrocada dessas duas utopias surgiu um vazio na alma humana desde o final do último século. E, como sempre acontece, o apelo ao misticismo, à própria magia, seria inevitável.

    E é ai que entra o nosso mago, com sua simplicidade, que lembra, em alguns momentos, os santos de todas as épocas e de todas as religiões, que dizem as palavras necessárias, as palavras que todos querem ouvir porque, de certa forma, essas palavras estão dentro da alma de todos nós.

    Paulo Coelho encontrou essas palavras em textos sagrados ou profanos, em lendas orientais e em gestas ocidentais, fez um “mix” genial dos Evangelhos, dos livros de magia medieval, da encantadora poesia oriental que mal conhecemos, encontrou também a simplicidade de não querer se impor, deixar rolar o que pensa e sente.

    Muitos tentaram e ainda tentam fazer o mesmo –mas sem o mesmo sucesso.

    De minha parte, tendo como ponto de partida para a minha vida pessoal e profissional um pessimismo atroz, uma visão negativa e cruel da existência humana, situo-me exatamente na outra ponta da corda. Mas me comove e sinto necessidade de saudar todo aquele que, como Paulo Coelho, tenta à sua maneira melhorar o homem e tornar a vida mais suportável.

    Além da obra, que é polêmica como qualquer outra obra, o que se destaca em sua personalidade é uma gentileza quase sobrenatural, fora e acima de qualquer consideração intelectual e pessoal.

    Paulo é aquilo que Nelson Rodrigues chamava de “doce figura”. Numa feira de livros em Barcelona, com mais de 200 escritores de todo mundo, inclusive uns 20 brasileiros, vi o assédio de editores internacionais em torno dele. Paulo era o grande astro presente, a decoração dos espaços era inspirada em seus livros.

    Paulo pegou cada um dos conterrâneos, a maioria sem acesso ao público mundial, e apresentou-o aos grandes editores e agentes de vários países, trocaram-se emails e endereços, pelo menos uns cinco ou seis tiveram ali sua iniciação no circuito literário contemporâneo. (Em tempo, não fiz parte desse grupo, já tinha contrato com a Gallimard e outras editoras).

    Para acentuar o tipo diferente de escritor que criou, lembro que em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, quando a tradição impõe o elogio obrigatório de Machado de Assis, ele destacou a importância de Malba Tahan em sua formação e em seu comportamento.

    Não me considero um leitor de Paulo Coelho, mas fui e continuo sendo um leitor esfaimado de Júlio César de Melo e Souza, o professor de matemática que adotou o pseudônimo famoso. Não me ficou difícil admirar Paulo Coelho e louvá-lo sempre que posso.



    Publicado por jagostinho @ 11:36



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