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  • 31dez

    Ferreira GullarFERREIRA GULLAR – COLUNISTA DA FOLHA DE SÃO PAULO

    Muitos de vocês, como eu também, hão de se perguntar por que, depois de tantos escândalos envolvendo os dois governos petistas, a popularidade de Dilma e Lula se mantém alta e o PT cresceu nas últimas eleições municipais.

    Seria muita pretensão dizer que sei a resposta a essa pergunta. Não sei, mas, porque me pergunto, tento respondê-la ou, pelo menos, examinar os diversos fatores que influem nela.

    Assim, a primeira coisa a fazer é levar em conta as particularidades do eleitorado do país e o momento histórico em que vivemos.

    Sem pretender aprofundar-me na matéria, diria que um dos traços marcantes do nosso eleitorado é ser constituído, em grande parte, por pessoas de poucas posses e trabalhadores de baixos salários, sem falar nos que passam fome.

    Isso o distingue, por exemplo, do eleitorado europeu, e se reflete consequentemente no conteúdo das campanhas eleitorais e no resultado das urnas. Lá, o neopopulismo latino-americano não tem vez. Hugo Chávez e Lula nem pensar.

    Historicamente, o neopopulismo é resultante da deterioração do esquerdismo revolucionário que teve seu auge na primeira metade do século 20 e, na América Latina, culminaria com a Revolução Cubana.

    A queda do Muro de Berlim e o fim da União Soviética deixaram, como herança residual, a exploração da desigualdade social, já não como conflito entre o operariado e a burguesia, mas, sim, entre pobres e ricos.

    O PT é exemplo disso: nasceu prometendo fazer no Brasil uma revolução equivalente à de Fidel em Cuba e terminou como partido da Bolsa Família e da aliança com Maluf e com os evangélicos.

    Esses são fatos indiscutíveis, que tampouco Lula tentou ocultar: sua aliança com os evangélicos é pública e notória, pois chegou a nomear um integrante da seita do bispo Macedo para um de seus ministérios.

    A aliança com Paulo Maluf foi difundida pela televisão para todo o país. Mas nada disso alterou o prestígio eleitoral de Lula, tanto que Haddad foi eleito prefeito da cidade de São Paulo folgadamente.

    E o julgamento do mensalão? Nenhum escândalo político foi tão difundido e comprovado quanto esse, que resultou na condenação de figuras do primeiro escalão do PT e do governo Lula. Não obstante, o número de vereadores petistas aumentou em quase todo o país.

    E tem mais. Mal o STF decidiu pela condenação de José Dirceu, José Genoino e Delúbio Soares, estourava um novo escândalo, envolvendo, entre outros, altos funcionários do governo, Rose Noronha, chefe do gabinete da Presidência da República em São Paulo e pessoa da confiança e da intimidade de Lula.

    Em seguida, as revelações feitas por Marcos Valério vieram demonstrar a participação direta de Lula no mensalão. Apesar de tudo isso, a última pesquisa de opinião da Datafolha mostrou que Dilma e Lula continuam na preferência de mais de 50 % da opinião pública.

    Como explicá-lo? É que essa gente que os apoia aprova a corrupção? Não creio. Afora os que apoiam Lula por gratidão, já que ele lhes concedeu tantas benesses, há aqueles que o apoiam, digamos, ideologicamente, ainda que essa ideologia quase nada signifique.

    Esse é um ponto que mereceria a análise dos psicólogos sociais. O cara acha que Lula encarna a luta contra a desigualdade, identifica-se com ele e, por isso, não pode acreditar que ele seja corrupto.

    Consequentemente, a única opção é admitir que o Supremo Tribunal Federal não julgou os mensaleiros com isenção e que a imprensa mente quando divulga os escândalos.

    O que ele não pode é aceitar que errou todos esses anos, confiando no líder. Quando no governo Fernando Henrique surgiu o medicamento genérico, os lulistas propalaram que aquilo era falso remédio, que os compridos continham farinha.

    E não os compravam, ainda que fossem muito mais baratos. Esse tipo de eleitor mente até para si mesmo.

    Não obstante, uma coisa é inegável: os dirigentes petistas sabem que tudo é verdade. O próprio Lula admitiu que houve o mensalão ao pedir desculpas publicamente em discurso à nação.

    Por isso, só lhes resta, agora, fingirem-se de indignados, apresentarem-se como vítimas inocentes, prometendo ir às ruas para denunciar os caluniadores.

    Mas quem são os caluniadores, o Supremo Tribunal e a Polícia Federal?

    Essa é uma comédia que nem graça tem.

     



    Publicado por jagostinho @ 10:49



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3 Respostas

WP_Cloudy
  • Rockk Disse:

    Esta bem Sr. Goulart, apresentem alguem que o povo possa confiar que com certeza tudo isso pode acabar, mais não me venha com o passado que foi bem pior que tudo isso. As figurS de Aecio ou Serra não é o remedio já que esses estão cobertos com escandalos bem maiores, pois se forem eles os salvadores da pátria o povo não é bobo fica com os mesmos, pois pelo menos esta comendo melhor e sobra os farelos coisa que não acontecia antes de Lula e Dilma.

  • Valmor Stédile Disse:

    O problema, Rockk, é que os defensores cegos desta caótica situação fazem política plantando medo e usando máquinas públicas para dividir o país em dois blocos – forçando a polarização PTucana – como se nada de melhor pudesse haver ou ocorrer. Isto que projeta o PT no poder não é mais do que bipartidarismo similar à ditadura ou quem sabe pior porque implantado à luz do dia (em pleno ‘Estado Democrático de Direito’) como se fosse realidade diferente da outra escancaradamente golpista.

  • wposnik Disse:

    Esse cara como ‘analista político’ é um bom poeta. Parece que faz décadas que perdeu o trem da história. Sua visão de mundo está mais para autocrítica de ciclos aziagos e senis de reflexão sobre seu próprio umbigo, do que produção original sobre a realidade social do País. Ele mesmo destaque sua fragilidade argumentativa, com expresso no 4º parágrafo ‘Sem pretender me aprofundar na matéria …’ Em verdade, falta-lhe estofo estofo … e muito provalvelmente, vitalidade, neurônios e sobretudo, um resto de otimismo. Sem uma visão otimista e prospectiva, o mundo acabou ontem, ou no dia 21 próximo passado. Sou idoso – tenho 68; mas, idosos que somam conservantismo e pessimismo doentios, como que convivendo com o reverso de suas próprias tragetórias anteriores, tornam-se seres vis, sorumbáticos, insuportáveis … Provavelmente, até consigo mesmos. Isto me faz lembrar um posto no Twitter, do ator gaúcho Paulo César Peréio (o 1º ‘Analista de Bagé’ no teatro), sobre o Serra: ‘Serra é o cara que, mesmo sozinho está mal acompanhado’. Imagine-se como é a convivência de um indivíduo nestas condições, com os seus familiares, filhos e netos, se é que os têm ainda por perto !

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