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  • 28dez

    AFP

    LATRINA

    A bela paisagem da Lagoa de Marapendi, a poucos passos do mar e das futuras instalações olímpicas do Rio-2016, contrasta com o cheiro nauseante de suas águas que, transformadas em latrinas pelos ricos condomínios vizinhos, causam a mortandade de toneladas de peixes.

    Quem vive e trabalha às suas margens lembra da época dourada deste rico ecossistema, localizado em meio a edifícios da Barra da Tijuca, próximo de onde serão o Parque Olímpico e a Vila Olímpica para os Jogos de 2016.

    “Eu vivi até 1985 da pesca na lagoa. Tinha muito robalo, camarão, corvina, pescada… Naquela época não havia muita pescaria em mar aberto porque a lagoa supria. Fomos para o mar aberto quando começou a dar problema porque vieram os grandes condomínios”, relatou Sérgio Borel, 59 anos, pescador há 40.

    No começo deste mês, quatro toneladas de peixes morreram na lagoa devido à contaminação associada aos 40ºC típicos do verão, explicou à AFP o biólogo Mario Moscatelli, em visita da AFP ao local.

    Ecoturismo em uma latrina? “Meu ganha-pão está na água. Quando falta oxigênio, morre peixe em tudo que é lado. Com isso, não consigo desenvolver nenhum tipo de projeto que viabilize a sustentabilidade da lagoa porque ninguém quer ficar passeando em cima de esgoto, com cheiro de peixe morto”, revoltou-se Ricardo Herdy, dono da empresa Ecobalsas, que faz o transporte dos moradores da região.

    Ricardo disse ter pensado em desistir do negócio, que inclui projetos sustentáveis como passeios educativos-ambientais e aulas de esportes aquáticos, devido à contaminação e à dificuldade da navegação na lagoa, cuja profundidade que chegou a 12 metros hoje, em alguns pontos, não passa de alguns centímetros.

    “O sistema de lagoas da baixada de Jacarepaguá (da qual faz parte a Lagoa de Marapendi, na zona oeste do Rio de Janeiro) foi transformado numa latrina há 40, 50 anos”, desabafou o biólogo Mario Moscartelli.

    “Aqui você tem um patrimônio ambiental e econômico inutilizado devido ao esgoto”, lamentou.

    Contaminação clandestina “O esgoto lançado na Lagoa de Marapendi vem de condomínios e loteamentos, sobretudo de classes média e alta, que não tratam completamente seu esgoto antes de lançar a água na lagoa”, explicou o biólogo, chamando atenção para o fato de no local não haver favelas, que costumam sofrer com a falta de saneamento.

    Segundo a Companhia Estadual de Águas e Esgoto (CEDAE), o esgoto chega à lagoa por ligações clandestinas, pois até 2007, quando não havia rede oficial de coleta e tratamento na região, os condomínios tratavam seus dejetos em estações próprias.

    Atualmente, embora um decreto estadual obrigue os moradores a se ligar à rede existente, que abrange 60% dos imóveis da baixada de Jacarepaguá, muitos resistiriam a se conectar, mesmo estando expostos a ações judiciais.

    “Onde a rede está completa há a exigência do Inea (Instituto Estadual do Ambiente) para que os condomínios se liguem, mas existe, sim, uma resistência para se ligar à rede porque os condomínios precisam fazer obras de adequação, o que representa um custo”, admitiu Marilene Ramos, presidente do instituto, encarregado de ações ambientais no estado.

    “Quando o condomínio não se liga, a CEDAE informa ao Inea, a quem cabe aplicar multas e inclusive medidas como a ‘rolha ecológica’ (tamponamento das saídas irregulares de esgoto), bem como mover ações por crime ambiental, nas quais o síndico pode ser responsabilizado”, acrescentou Marilene.

    A consequência dos lançamentos clandestinos é o assoreamento da Lagoa, que prejudica a navegação, e a baixa oxigenação da água, que mata os peixes e afeta outros animais que vivem na região, como aves, a capivara e o jacaré do papo amarelo, que apesar de dar nome à baixada de Jacarepaguá (lagoa rasa dos jacarés em tupi guarani), está sendo expulso pela poluição.

    Um problema com solução Os governos municipal, estadual e federal assumiram o compromisso de recuperar o complexo lagunar de Jacarepaguá, que se estende por 13 km e é composto pelas lagoas da Tijuca, Jacarepaguá, Camorim e Marapendi, além dos canais da Joatinga e de Marapendi, como parte dos encargos para a cidade do Rio sediar os Jogos de 2016.

    As obras preveem, entre outras intervenções, a dragagem de sedimentos poluídos no fundo das lagoas em um volume que daria para encher sete estádios do Maracanã, além da construção de quatro unidades de tratamento (UTRs) em rios da região.

    A dragagem, a cargo do governo do estado, é estimada em R$ 600 milhões, e as obras têm previsão para começar em fevereiro de 2013, com duração de 24 meses. A construção das UTRs, de responsabilidade da prefeitura, está avaliada em cerca de R$ 140 milhões com conclusão prevista para 2016, mas as obras não têm data para começar porque o projeto está em fase de captação de recursos.

    “Não tenho dúvida de que (a situação na lagoa de Marapendi) tem jeito. Não recuperam porque não querem”, afirmou Moscatelli, destacando que em três anos é possível recuperar o local, porque há tecnologia, dinheiro e vontade política com a proximidade dos Jogos.

    “Eu tenho fé que essas lagoas vão ser despoluídas. Ainda vou voltar a pegar meus camarões na lagoa”, disse, esperançoso, o pescador Sérgio Borel.



    Publicado por jagostinho @ 18:11



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