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  • 21maio

    Delúbio Soares (*)


    Viva está, na memória dos paraguaios e do mundo, a silhueta cabisbaixa e alquebrada do déspota subindo lentamente as escadas do avião que o levaria ao exílio e a emoção, a alegria transbordante dos que, dos balcões do aeroporto de Assunção, miravam a cena patética que punha um ponto final em quase quatro décadas de cruel tirania do general Alfredo Stroessner?

    O Paraguai é hoje uma sólida democracia, com importantes avanços sociais e econômicos, nosso parceiro no Mercosul e na estupenda hidrelétrica de Itaipu, e destina ao seu passado profunda consternação e sincero repúdio. Nas terras guaranis respira-se o ar da liberdade.

    No pequeno Uruguai, país de avançada estrutura social e sólida tradição democrática, instituiu-se ditadura militar feroz quando se quebra a normalidade institucional nos idos dos anos 70.

    Por mais de uma década se abarrotaram cárceres, inúmeros cidadãos desapareceram sem deixar pistas, dilapida-se a economia nacional e uma diáspora impressionante, onde quase 1/3 da população buscou o exílio fugindo do regime autoritário, espalhou-se pelo mundo.

    Após a redemocratização, em meados dos anos 80, algumas responsabilidades foram apuradas, mas a maior parte dos crimes não foi esclarecida e nem os criminosos punidos.

    A modelar sociedade uruguaia, que possibilitou aquela pequena e querida Nação ser chamada de “a Suiça das Américas”, fechou o ciclo histórica à maneira dos grandes povos: levou para a presidência da República um ex-prisioneiro político e líder guerrilheiro, José “Pepe” Mujica, e revogou dispositivos legais que mais serviam de biombo para assassinos e torturadores do que de pálida anistia.

    Mujica realiza governo com aprovação recorde, não foi chamado de “revanchista” sequer por seus poucos opositores e os uruguaios querem conhecer mais e melhor um passado que os atormenta e envergonha.

    O Chile, de tão sólida histórica democrática, ironicamente passou a servir de retrato pronto e acabado para o que se pode definir como ditadura: cruel, nefasta e assassina.

    Entre os anos de 1973 e 1989, o sanguinário Augusto Pinochet, chefiou governo que nasceu com a morte violenta do presidente Salvador Allende e fez da morte e da violência os instrumentos de manutenção de sua longa tirania.

    Milhares de exilados mundo afora, muitos deles caçados por sicários que os assassinavam em atentados à bomba ou emboscadas à mão-armada; adversários políticos confinados em campos de concentração nos longínquos territórios patagônicos, submetidos à maus tratos, fome e a temperaturas polares; parlamento, partidos políticos, associações de classe e sindicatos fechados; imprensa submetida a mais pesada censura; um número ainda hoje desconhecido de chilenos que foram presos, torturados, mortos e cujos corpos jamais foram encontrados por seus familiares: esse é o saldo da ditadura militar chilena.

    Quando, depois de eleito por consagradora votação, o presidente Patrício Aylwin, estabelece em março de 1990 a “Comisión Nacional de Verdad y Conciliación”, os chilenos começaram a conhecer detalhadamente o inventário de sangue e de dor, com os abusos, as torturas e os ‘assassinatos-de-estado’ patrocinados por Pinochet e seus aliados.

    O velho ditador, por um estratagema da Constituição que ele mesmo promulgara, era senador “biônico” e acumulava o comando do exército chileno.

    Nem assim escapou da verdade e da justiça. Em pouco tempo respondia a vários processos por mortes e desaparecimentos, além de uma ordem de detenção internacional que o reteve em Londres por mais de um ano em regime de prisão domiciliar.

    Os chilenos buscaram sua verdade histórica. E ela apresentou-se dolorosa, dura, permeada de depoimentos sofridos de impressionantes torturas, de crueldades aplicadas com requintes de sadismo, de homens e mulheres que pagaram com a própria vida o preço alto de sonhar com um país melhor, um Chile livre e democrático.

    E mais uma vez a história, caprichosa e inexorável, acertou suas contas com a ditadura militar, quando levou à presidência do Chile a filha de um militar legalista, brigadeiro da Força Aérea assassinado numa prisão do regime de Pinochet.

    E Michelle Bachelet, ela e a mãe também presas, torturadas e exiladas, ocupou o Palácio de La Moneda com competência e honradez, realizando uma gestão consagradora que lhe valeu a mais alta aprovação popular a um governante chileno em todos os tempos.

    No Chile, na Argentina, no Uruguai, no Paraguai, que eram parceiros do Brasil pós-64, do Brasil da OBAN e do DOI-CODI, do Brasil da tortura e dos desaparecimentos, na terrível “Operação Condor” (uma multinacional para matar adversários políticos das ditaduras de então), aqueles que ousaram quebrar a ordem constitucional e atraiçoar a democracia pagaram pela traição aos seus países e seus povos.

    No Brasil, isso não aconteceu e nem vai acontecer. Foi realizado um processo de redemocratização negociado com o próprio regime, com a Anistia que possibilitou a volta dos exilados ao país e dos cassados à vida pública.

    Mas é preciso conhecer a verdade, é preciso saber detalhadamente o que foi feito nos subterrâneos do pior período de nossa história republicana, quiçá, de toda nossa história.

    A presidenta Dilma Rousseff, ao dar posse aos membros da Comissão da Verdade, escreve um capítulo necessário e inesquecível na história de um país que, como ela própria, conheceu a crueldade e o terror da ditadura, e que, mesmo sem o intuito do revanchismo, quer conhecer essa triste história, essa história que jamais permitiremos que se repita, mas que jamais será esquecida pelos que amam o Brasil e a liberdade.

    (*) Delúbio Soares é professor

    www.delubio.com.br

    www.twitter.com/delubiosoares

    www.facebook.com/delubiosoares

    [email protected]

    Publicado por jagostinho @ 19:03



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