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  • 14mar

    ELIO GASPARI/FOLHA DE SÃO PAULO

    Imagine-se um retorno ao dia 22 de setembro de 2010, em plena campanha eleitoral. Dilma Rousseff tinha 51% na pesquisa do Datafolha, e o Planalto procurava se desvencilhar das traficâncias da ex-chefe da Casa Civil Erenice Guerra.

    Um grupo de intelectuais tucanos lançava um manifesto “Em Defesa da Democracia”, denunciando o aparelhamento do Estado pelo PT.

    Imagine-se a publicação da seguinte notícia naquele dia:

    “O presidente Lula recebeu hoje o empresário Silvio Santos. Ele foi pedir ajuda para salvar o seu Banco PanAmericano, em cujas contas foi descoberto um rombo de R$ 2,5 bilhões. Em dezembro do ano passado a Caixa Econômica comprou metade da instituição por R$ 739 milhões, e Silvio Santos recebeu cerca de R$ 200 milhões por conta dessa operação.

    Para salvar o PanAmericano, será necessária uma injeção do Fundo Garantidor de Créditos, uma instituição privada.

    Lula recebeu Silvio Santos sem que o encontro estivesse previsto na agenda. O apresentador informou que foi ao presidente para pedir uma doação para o Teleton, uma maratona de filantropia popular destinada a ajudar a Associação de Assistência à Criança Deficiente. O Teleton deste ano acontecerá nos dias 5 e 6 de novembro.”

    Publicada, essa notícia animaria a campanha eleitoral, mas tanto o empresário como o governo encobriram o verdadeiro propósito da visita.

    A maratona do Teleton arrecadaria R$ 24 milhões, mas o encontro de Silvio Santos com Lula resultou em outra doação, de R$ 2,5 bilhões, da banca que sustenta o Fundo Garantidor de Crédito com o dinheiro que coleta na sua clientela.

    Passados 18 meses da reunião no Planalto, os repórteres Flávio Ferreira, Julio Wiziack e Toni Sciarretta obtiveram de Luis Sandoval, ex-presidente do Grupo Silvio Santos, o tema da conversa com Lula:

    “A conversa de que o Silvio tinha ido até lá para pedir uma participação dele no Teleton foi um discurso para a imprensa. Ele foi lá pedir a ajuda do presidente.”

    Em tese, Lula poderia fazer muito pouco, pois o dinheiro do FGC não era dele, nem do governo.

    Os repórteres perguntaram a Sandoval: “Funcionou?”

    “Quando cheguei lá, tive a sensação de que o acordo já estava pronto. Só negociei as condições.”

    A empulhação convencional dos hierarcas do Planalto, do Banco Central e da direção do FGC sustentaram que os R$ 2,5 bilhões foram injetados no PanAmericano a partir de critérios técnicos. Lorota.

    O rombo, chamado inicialmente de “inconsistências contábeis”, não era de R$ 2,5 bilhões, mas de R$ 4,3 bilhões.

    Ao final, custou R$ 3,8 bilhões ao FGC. O PanAmericano foi passado ao BTG Pactual em condições companheiras.

    Seu presidente, Rafael Palladino, e sete diretores estão indiciados em inquérito da Polícia Federal. Todos acumularam fortunas pessoais.

    Nenhum hierarca do Ministério da Fazenda, da Caixa ou do Banco Central reconheceu ter participado de uma negociação ruinosa.

    Resta esperar para que se saiba como o FGC entrou na roda. As chances de que isso apareça por iniciativa da oposição são nulas.

    Na contabilidade do PanAmericano a Polícia Federal descobriu consultorias de grão-petistas e R$ 300 mil em doações legais para o partido.

    Dinheiro ilegal para políticos, só R$ 954 mil para o tucanato alagoano.

    Publicado por jagostinho @ 10:46



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