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  • 18dez

    BBC BRASIL/T.KAFALA-REPÓRTER LÍBIO

     

    Repórter da BBC diz que líbios estão entusiasmados com novas liberdades

    Quarenta anos de governo do coronel Khadafi foram varridos da Líbia este ano, mas quando eu retornei ao país que deixei aos 10 anos de idade, vi algumas coisas que quase não mudaram.

    “Wishwasha” é uma das palavras mais perfeitas da Líbia. Ela se refere às pessoas que dão informações suas à polícia secreta.

    A palavra é onomatopéica – se você a disser corretamente, com sua mão protegendo sua boca, ela soa como um sussurro malicioso.

    Mas ela nem sempre significou “informante” – para os líbios mais velhos, ela ainda quer dizer mosquito.

    O medo dos wishwasha já não existe mais.

    As pessoas vão e vem, se encontram e conversam, criticam, reclamam e fofocam alegremente.

    Por alto, 500 novos grupos de sociedade civil foram criados somente em Trípoli – partidos políticos, grupos de pressão, jornais e revistas, grupos ambientalistas, até uma sociedade de bem-estar dos animais.

    Todo o mundo que é alguém está convocando uma reunião para tratar de algum tema importante.

    Toda esta política é excitante e caótica. Duas das reuniões a que eu fui terminaram em confusões irritantes, quando o debate se tornou discussão e evoluiu para gritaria.

    Às vezes, os líbios parecem embriagados com suas novas liberdades.

    Nem todo o mundo está entusiasmado com a formação do novo governo, mas muitas pessoas com quem eu falei estavam orgulhosas de ter um governo e de que os ministros pudessem ser vistos todas as noites na TV, respondendo perguntas hostis e sendo pressionados a fazer algo sobre o que é importante.

    ‘A máfia’

    Eu assisti ansiosamente ao levante líbio à distância, na Grã-Bretanha.

    Os protestos se converteram em guerra quase imediatamente, com atos terríveis sendo cometidos de ambos os lados e eventualmente o drama sangrento do fim de Muamar Khadafi.

    Levou somente nove meses para desfazer quatro décadas de governo por uma família comumente chamada de “a máfia”.

    Mas as batalhas revelaram defeitos que já existiam na Líbia e, é claro, onde alguns líbios triunfaram, outros foram deixados derrotados, destituídos e dispersos.

    Com o fim do regime, diversos locais na capital mudaram de nome, como praça dos Mártires

    E há tantos homens armados que para onde quer que você olhe há armas.

    Um dos efeitos mais imediatos e surpreendentes da revolução é ter apagado todos os sinais – pelo menos na superfície – do próprio Khadafi.

    Ele era um homem vaidoso, e sua imagem e slogans estavam em todos os lugares, mas o único lugar que você o vê agora é nos grafites.

    Ele geralmente é representado sofrendo algum outro tipo de morte horrível.

    Os nomes também estão sendo modificados.

    Uma enorme torre no centro de Trípoli costumava ser conhecida como Torre Fatah, em homenagem à revolução que levou Khadafi ao poder.

    Agora ela é a Torre Trípoli. A Praça Verde agora é a Praça dos Mártires.

    Parece haver um plano para mudar o Largo Argélia no Largo Catar.

    A Argélia não ofereceu nenhum apoio aos revolucionários durante os protestos e o Catar os apoiou ativamente.

    Fala-se em uma Avenida Nicolas Sarkozy – a França foi o primeiro governo a reconhecer o Conselho Nacional de Transição em Bengazi.

    Esta é outra palavra importante para a nova Líbia, tudo é comandado por um conselho atualmente. O antigo regime gostava muito de “comitês”.

    E também há as ironias inevitáveis das revoluções.

    O atual governo está trabalhando no prédio que um dia abrigou o Comitê Geral Popular, que governava ostensivamente o país.

    Lugares da infância

    Enquanto estava em Trípoli, fiz peregrinações a lugares significantes da minha infância. O Clube de Golfe se foi completamente.

    Ele havia perdido o campo de golfe antes de eu nascer, mas manteve o nome, a sede e uma maravilhosa faixa de praia onde passávamos a maior parte de nossas férias de verão.

    Segundo Kafala, traços de Khadafi foram apagados em Trípoli

    Alguns anos atrás, alguém no poder decidiu destruir a sede e jogou os detritos na praia, deixando uma enorme bagunça que macula a praia até hoje.

    No entanto, minha escola (que era a Escola da Companhia Americana de Petróleo) ainda estava lá e quase não mudou.

    Tem a mesma fileira de armários, as mesmas salas de aulas separadas pelos mesmos gramados e com a mesma mobília, o passeio coberto, o ginásio – exatamente como eles eram, exceto por algumas camadas de pintura.

    Eu visitei a viela Kafala, uma rua pequena e estreita nos arredores da cidade antiga e arruinada de Trípoli que um dia abrigou a família estendida de meu pai.

    Quando eu era jovem, ele vivia em uma casa líbia clássica – três andares com quartos pequenos e sem janelas, que se davam para um pátio central.

    E a casa em que eu cresci, em uma parte mais nova de Trípoli, ainda está lá – desgastada e corroída, ocupada por um ex-general do exército que não quer se mudar.

    Eu espiei o jardim pelo portão, as cortinas do meu quarto estavam fechadas.

    Agora que minha mulher e minha família finalmente visitarão a Líbia, eu vou ensinar a meus filhos um pouco mais de árabe essencial.

    Aquela coisa irritante que faz barulho em nossos ouvidos quando estamos quase dormindo certamente será um wishwasha.

    Vamos recuperar esta palavra.



    Publicado por jagostinho @ 18:53



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