• 03nov

    ISTOÉ

     

    Negócios em família

     

    Como empresários e lobistas montaram uma rede de proteção em torno dos filhos de Lula e passaram a bancá-los, em troca de benesses no governo.

    O envolvimento dos familiares arrasta ainda mais o ex-presidente petista para o epicentro dos escândalos

     

    Marcelo Rocha e Raul Montenegro

    No início do mês de outubro, uma movimentação atípica chamou a atenção no edifício nº 450 da Rua Padre João Manuel, nos Jardins, endereço nobre em São Paulo.

    A vizinhança notou que pessoas retiravam papéis e outros objetos da LFT Marketing Esportivo, de propriedade de Luís Cláudio Lula da Silva.

    Naquela ocasião, já era de conhecimento público que a empresa do filho do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva entrara no radar das autoridades responsáveis pela Operação Zelotes, investigação que desbaratou uma quadrilha acusada de fraudar o Carf, o conselho que julga recursos contra multas aplicadas pela Receita.

    Os condôminos do conjunto comercial ouvidos por ISTOÉ ficaram com a impressão de que os responsáveis pelo escritório estavam de mudança.

    Não se tratava disso. Tudo ficaria mais claro três semanas depois: na segunda-feira 26, a Polícia Federal promoveu uma devassa no escritório.

    Vasculhou o local atrás de informações para tentar elucidar as relações de Luís Cláudio com um grupo de lobistas acusados de comprar medidas provisórias editadas pelo governo federal.

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    Se, ao que tudo leva a crer, o filho do ex-presidente tinha algo a esconder, ao se antecipar à ação da PF e fazer uma limpa no imóvel, só o aprofundamento das investigações poderá dizer com mais precisão.

    A PF, no entanto, já reúne indícios suficientes para concluir que em torno dos filhos de Lula foi montada uma espécie de rede de proteção sustentada por empresários que, com a ascensão do petista ao poder, tinham interesses em estreitar laços com o governo e turbinar seus negócios. Com o beneplácito do próprio Lula.

    Um dos empresários escalados para encostar nos filhos do ex-presidente, e prover-lhes do que fosse necessário, foi o pecuarista José Carlos Bumlai.

    Dono de acesso livre no Palácio do Planalto, durante a era Lula, Bumlai passou a ser alvo da Lava Jato após ser acusado de intermediar valores desviados de contratos da Petrobras.

    A função do pecuarista seria a de fazer o dinheiro chegar ao destino final, o que incluiria uma das noras do ex-presidente.

    A acusação foi feita pelo lobista Fernando Soares, conhecido como Fernando Baiano, após firmar acordo de delação premiada com os procuradores da República.

    Segundo ele, R$ 2 milhões foram repassados à nora do ex-presidente por intermédio de Bumlai. O empresário nega essa versão.

    Servir de elo com os familiares de Lula é uma especialidade do pecuarista, na avaliação dos investigadores da PF.

    Segundo apurou ISTOÉ, ele teria contribuído para aproximar o empresário Natalino Bertin, proprietário do Grupo Bertin, do clã Lula em meio às negociações para venda de uma fatia do frigorífico.

    A proximidade resultou em favores aos filhos de Lula. A pedido de Bumlai, Bertin disponibilizou um jatinho para os filhos de Lula em São Paulo entre 2010 e 2011.

    De acordo com um piloto da cidade de Lins (SP), onde a aeronave chegou a ficar estacionada, os Lulinhas usaram e abusaram do mimo.

    “O jato foi utilizado com freqüência. Principalmente aos fins de semana, quando a família ia para praias do Nordeste”, afirmou.

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    Outro empresário destacado para bancar os filhos do ex-presidente é Jonas Suassuna. Dono de um poderoso grupo de mídia e TI, o executivo virou sócio de Fábio Luis Lula da Silva, o Lulinha, e Kalil Bittar, filho do político Jacó Bittar, na Gamecorp, produtora com capital de R$ 100 mil que vendeu parte de suas ações à Telemar por R$ 5,2 milhões.

    Antes de firmar sociedade com Suassuna, Lulinha ganhava R$ 800 como monitor de jardim zoológico. A aproximação com o empresário lhe rendeu outros benefícios.

    Ex-morador de São Bernardo do Campo, Lulinha mudou-se para os Jardins, área nobre de São Paulo, e depois para um apartamento em Moema, de 300 metros quadrados de área, terraço gourmet, piscina e academia, cujo aluguel é estimado em R$ 35 mil por mês.

    Os dois imóveis pertencem ao empresário. O caçula do ex-presidente também mora de favor em um apartamento que pertence a amigos de seu pai.

    Ele e a mulher, Fátima Cassaro, vivem há três anos em um imóvel de 158 m2 na alameda Jaú, nos Jardins.

    O apartamento pertence a Mito Participações LTDA, empresa cujos cotistas são a esposa e as filhas do advogado Roberto Teixeira, íntimo de Lula, e padrinho de batismo de Luis Cláudio.

    Na política, se não forem estabelecidos limites, necessários à liturgia do cargo, a família tem grande potencial para gerar constrangimentos.

    Eventuais privilégios desfrutados por filhos dizem mais sobre os pais do que os próprios herdeiros.

    No Brasil, um País de oportunidades desiguais, regalias a parentes de políticos chamam muita atenção e, em geral, são consideradas inaceitáveis e despertam indignação e sensação de injustiça na população. Com Lula tudo isso ganha uma dimensão maior.

    Como explicar, a não ser pelo raciocínio óbvio de que o caminho para uma vida de luxos, apartamentos caros e jatinhos foi pavimentado pelo pai poderoso, que filhos do ex-metalúrgico dono de um indefectível discurso ético acumularam dinheiro e posses, depois dele ascender à Presidência?

    Como sustentar o discurso de vítima de perseguição das elites se parte dessa mesma elite passou a bancar despesas pessoais de sua família?

    Por isso, o envolvimento de Luís Claudio arrasta ainda mais o ex-presidente para o epicentro dos escândalos investigados pela PF. E ele tem conhecimento disso.

    Não foi por outro motivo que o petista intensificou os petardos contra o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo.

    O ex-presidente resolveu aumentar o tom após acertar a estratégia com o ex-chefe de gabinete e uma espécie de faz-tudo de Lula, Gilberto Carvalho, que também entrou na mira da PF semana passada.

    Os investigadores suspeitam que Carvalho seja peça fundamental para desvendar a conexão de Luís Cláudio com lobistas interessados em prorrogar a desoneração fiscal para montadoras de veículos por meio de medidas provisórias editadas pelo Executivo.

    Há indícios de que Carvalho tenha sido o contato do lobby dentro do Palácio do Planalto.

    Mensagens interceptadas pela polícia revelaram o grau de intimidade do ex-chefe de gabinete de Lula com Mauro Marcondes Machado, dono do Marcondes e Mautoni, um dos escritórios do lobby.

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    Ao analisarem os sigilos bancário e fiscal da Marcondes e Mautoni, auditores da Receita se depararam com a LFT Marketing Esportivo, empresa de Luís Cláudio.

    Apenas em 2014, a LFT recebeu da Marcondes R$ 1,5 milhão – a segunda maior quantia na relação de credores da empresa.

    No total, a LFT recebeu do lobista R$ 2,4 milhões. A constatação acendeu o alerta no Fisco. Há indícios de que a empresa do filho do ex-presidente Lula sequer tenha atuado naquele período.

    De acordo com a Rais (Relação Anual de Informações Sociais), cadastro do Ministério do Trabalho, a LTF não teve qualquer vínculo empregatício em 2014, ano dos pagamentos realizados pela Marcondes e Mautoni.

    “É muito suspeito que uma empresa de marketing esportivo (a LFT) receba valor tão expressivo de uma empresa especializada em manter contatos com a administração pública (Marcondes e Mautoni)”, afirmaram os procuradores da República que pediriam à Justiça Federal as buscas nos endereços de Luís Cláudio.

    De fato, não faz sentido. Em troca, as montadoras representadas pelo lobista Mauro Marcondes Machado conseguiram prorrogar benefícios fiscais que somavam R$ 1,3 bilhão, após a edição de uma medida provisória pelo então presidente Lula.

    A PF também estranhou que o e-mail informado no ministério do Trabalho pela empresa de Luís Cláudio é vinculado à Bilmaker 600 Serviços em Importação e Exportação Ltda.

    A empresa pertence a Glauco Costamarques, primo de Bumlai. Anos atrás, Luís Cláudio e Fábio Luís Lula da Silva chegaram a abrir uma empresa, a LLCS Participações, no mesmo endereço da Bilmaker.

  • 03nov

    ÉPOCA

     

    Relatório do Coaf mostra movimentações milionárias nas contas de Lula, Palocci, Pimentel e Erenice

     

     

    Um relatório da agência do governo de combate à lavagem de dinheiro revela que os quatro, entre outros petistas, movimentaram quase meio bilhão de reais em transações com indício de irregularidades

     

     

    >> Trecho da reportagem de capa de ÉPOCA desta semana

    Há duas semanas, analistas do Conselho de Controle de Atividades Financeiras, mais conhecido pela sigla Coaf, terminaram o trabalho mais difícil que já fizeram.

    O Coaf, subordinado oficialmente aoMinistério da Fazenda, é a agência do governo responsável por combater a lavagem de dinheiro no Brasil.

    Reúne, analisa e compartilha com o Ministério Público e a Polícia Federal informações sobre operações financeiras com suspeita de irregularidades.

    Naquela sexta-feira, dia 23 de outubro, os analistas do Coaf entregavam à chefia o Relatório de Inteligência Financeira 18.340.

    Em 32 páginas, eles apresentaram o que lhes foi pedido: todas as transações bancárias, com indícios de irregularidades, envolvendo, entre outros, os quatro principais chefes petistas sob investigação da PF, do Ministério Público e do Congresso.

    Revista ÉPOCA - capa da edição 908 - O dinheiro suspeito (Foto: Revista ÉPOCA/Divulgação)

    Eis o quarteto que estrela o relatório: Luiz Inácio Lula da Silva, ex-presidente da República, líder máximo do PT e hoje lobista; Antonio Palocci, ministro da Casa Civil no primeiro mandato de Dilma Rousseff, operador da campanha presidencial de 2010 e hoje lobista;Erenice Guerra, ministra da Casa Civil no segundo mandato de Lula, amiga de Dilma e hoje lobista; e, por fim, Fernando Pimentel, ministro na primeira gestão Dilma, também operador da campanha presidencial de 2010, hoje governador de Minas Gerais.

    O Relatório 18.340, ao qual ÉPOCA teve acesso, foi enviado à CPI do BNDES. As informações contidas nele ajudarão, também, investigadores da Receita, da PF e do MP a avançar nas apurações dos esquemas multimilionários descobertos nas três operações que sacodem o Brasil: Lava Jato, Acrônimo e Zelotes.

    Essas investigações, aparentemente díspares entre si, têm muito em comum. Envolvem políticos da aliança que governa o país e grandes empresários.

    No caso da CPI do BNDES, os parlamentares investigam as suspeitas de que os líderes petistas tenham se locupletado com as operações de financiamento do banco, sobretudo as que beneficiaram o cartel de empreiteiras do petrolão.

    SEGURO O ex-presidente  Lula e o relatório do Coaf (acima). Também foram identificadas operações de compra de títulos  de previdência  por R$ 6,2 milhões (Foto:  )

    Ao todo, foram examinadas as contas bancárias e as aplicações financeiras de 103 pessoas e 188 empresas ligadas ao quarteto petista.

    As operações somam – prepare-se – quase meio bilhão de reais.

    Somente as transações envolvendo os quatro petistas representam cerca de R$ 300 milhões.

    Palocci, por exemplo, movimentou na conta-corrente de sua empresa de consultoria a quantia de R$ 185 milhões.

    Trata-se da maior devassa já realizada nas contas de pessoas que passaram pelo governo do PT. Há indícios de diversas irregularidades.

    Vão de transações financeiras incompatíveis com o patrimônio a saques em espécie, passando pela resistência em informar o motivo de uma grande operação e a incapacidade de comprovar a origem legal dos recursos.

    FARTURA A empresa de Palocci movimentou as maiores quantias. O relatório (acima) mostra, entre seus clientes, a Caoa, suspeita de comprar uma medida provisória (Foto:  )
    MISTÉRIO O governador Pimentel também fez aplicações de R$ 676 mil no mercado segurador sem prestar informações sobre a origem do dinheiro, segundo o Coaf (acima) (Foto:  )
    LOBISTA Erenice, ex-ministra de Lula. Uma empresa de seu filho recebeu dinheiro de Fábio Baracat, suspeito de pagar propinas por contratos com o governo  (Foto:  )

    O Coaf não faz juízo sobre as operações. Somente relata movimentações financeiras suspeitas de acordo com a lei e regras do mercado, como saques de dinheiro vivo na boca do caixa ou depósitos de larga monta que não tenham explicação aparente.

    O Coaf recebe essas informações diretamente dos bancos e corretoras. Eles são obrigados, também nos casos previstos em lei, a alertar o Coaf de operações “atípicas” envolvendo seus clientes.

    É obrigação do Coaf avisar as autoridades sobre operações suspeitas de crimes. A lavagem de dinheiro existe para esquentar recursos que tenham origem ou finalidade criminosa, como pagamentos de propina.

    Não cabe ao Coaf estipular se determinada transação é ilegal ou não. Cabe a ele somente informar a existência dessa transação às autoridades competentes, caso essa transação contenha características de uma operação de lavagem de dinheiro.

    Foi isso que o Coaf fez no caso do quarteto petista.

    Cabe agora à PF, ao MP e ao Congresso trabalhar detidamente sobre as informações reveladas pelo Coaf.

    GRANDE FAMÍLIA Lula e família. Uma de suas empresas transferiu R$ 48 mil a Fernando Bittar, sócio de um dos filhos do petista e dono de um sítio abribuído ao ex-presidente (Foto:  )
  • 24out

    ISTOÉ

     

    Como a recessão, o desemprego e o recuo nas políticas sociais estão empurrando milhares de brasileiros para a pobreza extrema

     

    Débora Bergamasco (DF), Eliane Lobato (RJ), Camila Brandalise e Fabíola Perez

    É triste de ver. Nos sinais, nas calçadas, debaixo dos viadutos, na periferia ou nos grandes centros, ela volta a se mostrar com uma crueza desconcertante.

    A miséria tem mil faces e com a crise que assola o País ganha cada vez mais força e destaque na paisagem cotidiana das cidades brasileiras.

    Ela está estampada nos rostos de flanelinhas, carroceiros, meros pedintes, vendedores de balas, basqueteiros de cadeira de roda, ferramenteiros, mães com filho de colo, ambulantes diversos, desempregados sem teto, um contingente crescente e variado de necessitados que toma as ruas.

    Institutos atestam que há, hoje, cerca de 90 milhões de brasileiros classificados como miseráveis ou na linha da pobreza extrema – estatisticamente, cidadãos que sobrevivem com uma renda familiar inferior ao salário mínimo.

    Isso é mais de um terço da população total. Em meados dos anos 70 o numero não passava de 30 milhões e estava concentrado basicamente no campo. Os miseráveis migraram para as metrópoles.

    Montaram favelas e moradias improvisadas por onde podiam. Na virada do século já somavam perto de 60 milhões de excluídos e, de lá para cá, não pararam de crescer, a um ritmo de 3% ao ano.

    Nem mesmo os programas sociais implementados por seguidos governos foram capazes de barrar esse avanço e, com o atual corte de despesas na área, o universo tende a explodir.

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    NECESSIDADE
    Vivendo com oito filhos e o marido em um três cômodos numa uma favela de São Paulo, Sandra Cezarina tenta sustentar a família com menos de R$ 200 por mês

    Um trabalho recém-concluído pelo pesquisador Samuel Franco, do Instituto de Estudos de Trabalho e Sociedade (Iets), com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), aponta que em quase 20% dos lares brasileiros nenhum morador tem atualmente emprego.

    Em um ano a alta foi de 770 mil famílias sem qualquer membro com rendimento de trabalho formal ou informal e – por tabela – com baixíssimas condições de bancar seus dependentes.

    A falta de trabalho é a maior chaga que pode acometer uma sociedade. Por trás dela vem o gradual empobrecimento da população.

    Percentualmente, a parcela dos lares onde ninguém está ocupado passou de 18,6% ao longo de 2014 para 19,3% no primeiro semestre deste ano.

    No período, quase um milhão de vagas foram sumariamente extintas. E muitos dos dispensados passaram a engrossar o mafuá dos cruzamentos, montando um verdadeiro pit stop de comércio persa nas esquinas, praças e avenidas.

    A pobreza fora de controle, com milhares de indivíduos sem perspectiva ou condições de sustento, retrata o Brasil desses dias, que mergulha na maior recessão dos últimos 25 anos.

    Há dez meses Adilson de Souza Catarino, 39 anos, perdeu seu emprego como jardineiro na paróquia de Embu das Artes, cidade na Grande São Paulo.

    Continuou procurando vaga na área, mas só ouviu negativas. Depois que parou de receber o seguro-desemprego, e sem perspectiva de trabalho, não teve como bancar o aluguel e foi para as ruas do Centro de São Paulo.

    A mulher e os dois filhos estão em Minas Gerais, estado natal de Catarino. Sem perspectiva, ele faz um curso gratuito de pedreiro para conseguir uma colocação.

    “Quero retomar minha vida. Mas sem trabalho nem dinheiro, faz como?”, diz. Viver na rua e dormir em albergue tem sido uma experiência arrasadora para Catarino. Ele descobriu um mundo assustador, deprimente e corrosivo para a sua auto-estima.

    O aluguel que golpeou o jardineiro tem feito outras vítimas, justamente nas localidades mais pobres. Nas favelas, há registros de aumento de mais de 70% no último ano.

    Em Paraisópolis, por exemplo, na Zona Sul de São Paulo, um imóvel de dois cômodos custava no ano passado entre R$ 300 e R$ 380. Este ano, varia entre R$ 500 a R$ 700.

    Desempregado há um ano, William da Silva, 42 anos, viu as dívidas se acumularem neste período. Foi removido da casa onde vivia e hoje mora no barraco de três cômodos da sogra, numa favela de São Paulo, com a mulher e os cinco filhos.

    “Hoje, a principal dificuldade é que tudo está mais caro. Ver seu filho pedir um leite, um pão, uma bolacha e não poder dar marca muito”, diz William.

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    Entre 2015 e 2016 os brasileiros devem perder cerca de R$ 280 bilhões de sua capacidade de compra, segundo estudo da Consultoria Tendências.

    É a primeira vez, desde 2004, que se registra recuo do poder aquisitivo após anos ininterruptos de crescimento do consumo.

    “A última coisa que comprei foi essa geladeira, há um ano e quatro meses”, aponta a alagoana Monica Maria Calixto, 41 anos, em São Paulo há 30, mostrando o eletrônico, desajeitadamente organizado em seu barraco de três cômodos.

    Desempregada há um ano e três meses e mãe de cinco filhos, ela não consegue mais pagar as contas de luz e de água.

    “Se for pagar, como vou dar de comer aos meus filhos? Fiz o cadastramento para receber o Bolsa Família em fevereiro e não recebi ainda”, diz a ex-auxiliar de limpeza que estudou até a quinta série do Ensino Fundamental, estava no mesmo emprego, com carteira assinada, há sete anos, e não consegue se recolocar.

    A queda de renda e de possibilidades, que atinge todas as camadas sociais, ganha contornos dramáticos na base da pirâmide onde se situam principalmente aqueles brasileiros com baixa escolaridade.

    Nesse universo, os demitidos da crise em vigor, com limitadas chances de recolocação, partem para fazer bicos aqui e ali. Das mais variadas maneiras.

    De preferência tomando as ruas, onde não é preciso esperar pela oferta de chefes e patrões, que desapareceram por esses dias.

    Catadores de papel, quinquilharias e latinhas, recicláveis de qualquer natureza, com suas carroças abarrotadas de peças que ninguém quer mais, aumentaram numa quantidade incomum.

    Segundo o Movimento Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis, há atualmente 800 mil catadores em atividade, 65% deles mulheres.

    A entidade acusa um aumento de 15% no último ano no número de pessoas nessa função. E a oferta dessa mão-de-obra, aliada ao custo dos compradores, fez cair o preço da sucata, exigindo jornada dobrada daqueles que se aventuram na atividade.

    Sandra Regina Ferreira Cezarina, 31 anos, é uma das mulheres que engrossaram as estatísticas dos catadores de latinhas.

    Demitida do emprego de auxiliar de limpeza, e à procura de trabalho há meses, passou a viver de catar recicláveis, o que lhe rende de R$ 60 e R$ 100 por mês.

    Junta a esse valor o Bolsa Família de R$ 112 da filha e é essa a renda da família de dez membros.

    Moradora em uma favela de São Paulo, Sandra vive num barraco de três cômodos – cozinha com apenas um fogão, banheiro e quarto com um berço e um colchão – com o marido também desempregado e oito filhos.

    “Minha maior dificuldade hoje é garantir o pão e o leite no dia seguinte. Arroz e feijão não consigo comprar todo dia”, diz.

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    A disputa também é grande entre vendedores de alimentos. Nas feiras, nas barracas, no isopor. Com a mudança de estação, a cada dia mais quente, evapora a podridão de verduras, frutas, doces que se deixam cair na ânsia de convencer com rapidez os transeuntes.

    Depois de trabalhar durante 15 anos como segurança, José Luciano da Silva, 44 anos, sofreu um acidente de carro em dezembro e foi afastado do trabalho.

    Sem dinheiro e com a mulher também fora do mercado, decidiu vender frutas em uma das vias mais movimentadas da zona oeste de São Paulo.

    “Tendo um preço bom e sabendo trabalhar, dá para sobreviver” , diz. Silva trabalha das 6h às 20h, de segunda à sexta-feira, mesmo com o braço imobilizado por causa do acidente.

    Vende frutas a valores bem abaixo dos praticados na região – uma dúzia de banana sai por R$ 4 e um suco de 300ml de melancia, que na padaria mais próxima custa R$ 5,50, vende a R$ 2.

    Os limpadores de vidro que oferecem seus serviços nos semáforos são outros que se avolumam nas metrópoles.

    Everton Auto Ferreira da Silva, 28 anos, foi demitido de uma metalúrgica em 2013 e viu a rua como única alternativa.

    Tinha carteira assinada, um salário de R$ 1,2 mil, mulher e dois filhos pequenos, mas hoje, com todos os problemas que a demissão lhe trouxe, está separado e mal vê as crianças.

    Morador de Guaianazes, bairro no extremo leste de São Paulo, prefere trabalhar no centro da cidade e levar uma hora e meia para chegar até lá porque o movimento de carros é maior.

    A água e o sabão ele ganha em um posto de gasolina das proximidades. E diz não ver muita cara feia. “A maioria dos motoristas me dá algumas moedas.”

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    Segundo Pedro Fassoni Arruda, cientista político da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, houve uma estagnação da redução da pobreza no País em razão da crise econômica.

    “Quem acaba pagando o custo são os mais pobres e a condução da atual política econômica sinaliza um aumento da pobreza. Acredito que há uma tendência para voltarmos a uma situação de precariedade.”

    Mas não é preciso consultar estatísticas ou tratados de sociologia para perceber que a miséria espreita a cada esquina e vai, de novo, rapidamente, mudando o cenário nas cidades brasileiras.

    Ela não se esconde mais nas favelas, cortiços ou áreas invadidas. Em qualquer lugar público estão lá seus protagonistas. E eles se multiplicam com o cair da noite.

    Aparecem de uma hora para a outra com cobertores, cadeiras e parcos utensílios para se acomodar em todo canto, debaixo das marquises ou nos bancos disponíveis.

    São inúmeros esses agrupamentos humanos, esparramados nos túneis e becos, que viraram rotina e transformaram os grandes centros urbanos num território de desesperados sociais.

    O fenômeno não é exatamente novo, mas há de se lamentar o fato de seu retorno e recrudescimento após a conquista da estabilidade do real e a promessa do surgimento de uma nova nação.

    O corte de R$ 9 bilhões, ou 50% do que foi gasto em 2014 no Programa Minha Casa, Minha Vida e nos projetos de educação como o Pronatec (corte de R$ 2,3 bilhões) e Ciências sem Fronteiras (corte de R$ 2 bilhões) só agravam ainda mais o processo de avanço dos excluídos.

    “A crise pode aumentar a população de rua”, diz Sônia Rocha, economista do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade e autora de “Transferências de Renda no Brasil – O Fim da Pobreza?”.

    “Pessoas mais vulneráveis acabam indo para as ruas empurradas por condições sócio econômicas muito graves.”

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    Pelos critérios da Organização Mundial de Saúde (OMS) e da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), a definição de pobreza extrema encontra outros critérios.

    É baseada na estimativa do valor de uma cesta de alimentos com a quantidade mínima de calorias capaz de suprir uma pessoa.

    De acordo com essa metodologia, o Brasil também vem registrando, desde 2013, aumento na quantidade de carentes.

    Eles somariam cerca de 30 milhões de brasileiros, 11 milhões dos quais na condição de miseráveis, vivendo com menos de R$ 77 per capita por mês, parâmetro estabelecido pelo Programa Brasil Sem Miséria.

    Nesse campo de análise o índice subiu de 3,6% para 4% da população. Pode parecer pouco em termos percentuais, mas representa um absurdo no tocante a regressão da qualidade de vida nacional.

    Há pelo menos um par de ano já era possível prever que estava sendo armado no Brasil um desastre social de proporções épicas, fruto direto de políticas, atitudes e decisões erradas por parte do Governo.

    Também era evidente que iriam faltar recursos para atender cidadãos humildes num país em que o Estado sustenta uma máquina capaz de torrar R$ 214 bilhões em um ano apenas para pagar os salários de seus funcionários.

    Na semana passada, ministros e políticos aliados voltaram a falar em redução de investimentos, dessa vez no Bolsa Família.

    Algo como R$ 10 bilhões, ou 35% do total, seriam cortados do Programa na proposta do relator do orçamento federal, deputado Ricardo Barros. A presidente Dilma resolveu barrar a manobra.

    “O último bastião vai ser mexer no Bolsa Família”, diz Alvaro Martins Guedes, especialista em administração pública e professor da Unesp. “Será tensão social e miséria absoluta.”

    Alheia às tramas em Brasília, Maria Aparecida Guimarães, 52 anos, vive com a filha e o neto num barraco minúsculo na cidade de São Paulo.

    Todos os adultos da casa estão desempregados e a família sobrevive com R$ 300 por mês do que chamam de “bicos”.

    Com isso, não é possível pagar aluguel, água, luz, nada. O pouco que têm vai para o gás e a comida.

    “Minha vida piorou muito”, atesta dona Maria Aparecida.

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    Uma coisa é certa: nada tão previsível como a miséria brasileira após anos seguidos de desvios e má gestão das administrações petistas.

    Logo ela, que empunhava a bandeira do “tudo pelo social”, enterrou a oportunidade de ouro de conduzir o País para um novo papel no concerto das nações.

    Da mesma forma, nada tão inevitável como a mudança de patamar da miséria por aqui. Durante muito tempo os brasileiros se acostumaram a encarar as favelas dos centros urbanos como símbolos de um padrão miserável de vida.

    Elas perderam esse status. Mudaram de nome. Viraram comunidades. E a realidade dos últimos anos informa que a favela de outrora deixou de ser para qualquer um.

    No eixo Rio-São Paulo, por exemplo, o aluguel de um barraco pode chegar a R$ 2 mil. Resultado: cresce a quantidade de pessoas que não têm recursos sequer para morar numa favela, sobretudo nas que hoje contam com casas de alvenaria, luz elétrica e água encanada.

    Por isso mesmo é que o flagelo humano ganhou às ruas. Deixou de ser visto apenas como um incômodo estético para se converter numa terrível demonstração de abandono do compromisso oficial de erradicação da pobreza.

    A reportagem de ISTOÉ encontrou Marcelo Coelho, 45, numa fila para ganhar um prato de comida, dado pelas irmãs da instituição Madre Teresa de Calcutá, na Lapa, centro do Rio.

    Eletricista e pai de três filhos, Marcelo trabalhou 1 ano e 6 meses na CSL Siderurgia do Brasil, em Volta Redonda, no Rio de Janeiro, mas foi demitido há oito meses, devido a um corte de custos.

    Ao tentar a sorte no Rio de Janeiro, foi assaltado logo que chegou, e ficou sem documentos. Encontrou apoio na Instituição Madre Teresa  de Calcutá, que ajuda dando roupas e alimentação.

     “Durmo na rua, onde der, mas não deixo de procurar emprego. Nessa condição de miséria, o sujeito fica sem dinheiro para tudo. É muita humilhação para quem já teve um lar, uma família, um trabalho”, diz Coelho, que mandou os filhos para a São Paulo, na casa do sogro.

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    Discutia-se no passado como dividir o bolo da riqueza no País. Esse debate foi superado com a estabilização da moeda, ainda na era FHC, e a criação de programas como o Bolsa Escola, Bolsa Alimentação, Auxílio Gás e Fome Zero, reunidos todos eles depois sobre um mesmo guarda-chuva na gestão seguinte.

    Por mais exótica que fosse, a sociologia bandoleira de Lula cumpria uma missão. Resgatava para milhares de brasileiros o sentimento de dignidade.

    Mas a perpetuação da estratégia assistencialista, sem qualquer trabalho adicional no campo da preparação e aprimoramento do indivíduo para enfrentar os desafios do mercado e ganhar o próprio sustento, criou distorções como o nascimento de uma massa de acomodados, pessoas defasadas e dependentes das benesses do governo.

    Com a escassez em voga dos recursos estatais, muitos desses amparados perderam o chão. E o teto. Passando a habitar calçadões e viadutos.

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    O problema, com perspectiva de piora, é que hoje em dia existem outros cidadãos disputando esses mesmos lugares.

    São desempregados da indústria e do varejo, profissionais da construção civil, aposentados maltratados pelas pensões miseráveis da previdência e toda sorte de gente que não tem dinheiro para pagar sequer o quarto de um cortiço.

    Desempregada há quatro meses, Ládis Rocha Ladislau, 49 anos mostra insistentemente sua carteira de trabalho, um símbolo de dignidade que carrega pelas ruas da Zona Sul do Rio de Janeiro, onde vive.

    Sem trabalho, sem dinheiro e sem o marido, que a abandonou, ela diz que a irmã e as sobrinhas moradoras do subúrbio também não quiseram recebê-la.

    Dormindo no bicicletário da Glória, sua rotina é totalmente diferente. “Não lavo roupa: uso até ficar muito sujo e jogo fora. E tomo banho em chafariz. Peço dinheiro e me alimento, a depender da bondade alheia. Mas ninguém gosta de ajudar”, diz a ex-auxiliar de serviços gerais, agora sem rumo depois que perdeu a casa.

    É cidadã de um país que começou a dar errado bem antes de o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, anunciar seu ajuste fiscal.

    Diga-se que fosse apenas a moradia sua dificuldade já seria um desafio monumental superá-la.

    Virar desabrigada é contar com a sorte a cada dia.

    Inclusive para não ser morto por desconhecidos ou bandidos que imperam nas madrugadas.

    Pessoas como Ládis e outros brasileiros citados nesta reportagem podem ser definidas como cidadãos fora das estatísticas oficiais.

    É que para efeito de registro, os cálculos sobre miseráveis e desabrigados em geral consideram apenas aqueles com endereços fixos, que podem ser localizados.

    Uma incoerência absoluta! Decorre daí que provavelmente existam muito mais pessoas nessa situação no Brasil inteiro do que estimam os institutos com seus chutes numéricos.

    Embora o fenômeno epidêmico de moradores de rua esteja mais concentrado em casos clássicos de desajustados – mendigos, alcoólatras irrecuperáveis, drogados e doentes mentais – é fato que muitos ex-empregados estão enveredando por essa alternativa.

    E até trabalhadores ocupados assumiram essa condição devido os baixos soldos que recebem.

    A conclusão, aí, é perfeitamente clara.

    O trabalho, no Brasil, já não é suficiente para evitar que o indivíduo acabe perambulando sem destino pelos grandes centros.

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    O que chama a atenção é que, em sua fase atual, a pororoca dos necessitados não faz distinção regional.

    Acomete com igual vigor metrópoles e pequenos municípios. Há um ano, Rosângela da Silva Santos, 37 anos, morava com seus oito filhos em uma casa alugada na cidade de Santa Maria, nos arredores de Brasília.

    O imóvel era pequeno: apenas um quarto, uma sala, uma cozinha, um banheiro e um quintal. Mas ela diz ter saudades de ter um teto para proteger sua família, “especialmente nos dias de chuva”.

    Hoje está morando em um terreno baldio do Plano Piloto. No município vizinho, ela trabalhava para uma cooperativa de reciclagem e contava com a ajuda do governo do Distrito Federal para inteirar o aluguel.

    Perdeu o benefício, não pode mais morar na mesma região e, longe da coleta, ficou desempregada.

    No terreno, escolheu a sombra de uma mangueira alta, fincou estacas de bambu, cobriu com uma lona preta e forrou o chão de terra batida com papelão.

    Recentemente, encontrou em um lixão uma mesa e bancos de madeira, que acomodou ao lado do barraco.

    Lá, seus filhos comem e fazem a lição da escola. O dinheiro que recebe é vindo do Bolsa Família, cerca de R$ 300, e de latinhas que recolhe na rua.

    “Sinto falta de poder abrir e fechar a porta de casa”, lamenta..

    É um dado perverso no sistema brasileiro de desenvolvimento que os R$ 5,74 trilhões de PIB, segundo o Ministério da Fazenda – número inferior aos dos demais anos, mas ainda assim relevante -, não tenham impacto positivo direto na vida dessa significativa massa de aflitos.

    É um problema que transcende partidos, bandeiras ideológicas e disputas de poder.

    E que deveria motivar a todos por um grande pacto nacional em busca de saídas imediatas.

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  • 17out

    ÉPOCA

     

    R$ 4 milhões pelo lobby: os contratos milionários de Lula com a Odebrecht

     

    ÉPOCA obteve contratos assinados entre o ex-presidente e a empresa.

    No papel, dinheiro para “palestras”.

    Na prática, dinheiro para alavancar os negócios da empreiteira no exterior

     

     

    No final da manhã de quinta-feira, 15 de outubro, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva estava bem-humorado.

    Por iniciativa própria, prestava um depoimento reservado ao Ministério Público Federal, em Brasília, para explicar sua atuação ao lado da empreiteira Odebrecht.

    Em vez de ir ao prédio da instituição, Lula foi ouvido em uma casa no Lago Sul, de forma discreta.

    Foi seu único pedido ao procurador, para escapar ao assédio de jornalistas. Ao seu estilo sedutor, Lula fez piadas com o procurador da República Ivan Cláudio Marx, ao dizer que o Corinthians, seu time, será campeão brasileiro.

    Na hora de falar sério, disse que não fez lobby, mas sim palestras no exterior com a missão de explicar a receita brasileira de sucesso em países da África e da América Latina.

    Procurou defender-se na investigação, revelada por ÉPOCA em maio, que apura se ele praticou tráfico de influência internacional em favor da empreiteira Odebrecht.

    Lula disse que não é lobista, que recebeu “convites de muitas empresas e países para ser consultor”, mas não aceitou porque “não nasceu para isso”.

    Num termo de declaração de quatro páginas obtido por ÉPOCA, ele sustenta que todos os eventos para os quais foi contratado estão contabilizados em sua empresa L.I.L.S. – um acrônimo de seu nome.

    Foi por meio dela que Lula ficou milionário desde que deixou o Palácio do Planalto, em 2011.

    AMIGOS Lula com Alexandrino Alencar, da Odebrecht  (de barba, atrás), no Peru. Alexandrino era o responsável pelas palestras de Lula no exterior e viajava com ele (Foto: reprodução)

    ÉPOCA obteve cópia dos contratos privados, notas fiscais e descrições das relações entre o ex-presidente e sua principal contratante.

    Nomeado projeto “Rumo ao Caribe”, as viagens de Lula bancadas pela Odebrecht inauguraram um padrão de relacionamento do ex-presidente, poucos meses após deixar o Planalto, com a empreiteira-chave da Lava Jato

    Ao longo dos últimos quatro anos, a L.I.L.S. foi acionada para que Lula desse 47 palestras no exterior, muitas a convite de instituições. Sua maior cliente é, de longe, a Odebrecht.

    Contratos assinados entre Lula e Odebrecht (Foto: reprodução)

    A construtora que lidera a lista das patrocinadoras de Lula pagou quase R$ 4 milhões para o ex-presidente fazer dez palestras.

    Além disso, bancou os custos das viagens para países em que possui obras financiadas pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), como Angola e Venezuela.

    Esses gastos de R$ 3 milhões, ao câmbio da época, incluem transporte e hospedagem em hotéis “5 estrelas ou superior”, com dormitório com cama king size, sofás, frutas, pães, queijos, frios, castanhas, água, refrigerantes normais e do tipo “zero” e, em alguns casos, fora do contrato, bebidas alcoólicas.

    As contratantes eram responsáveis por fretar aeronaves particulares. Ter Lula como palestrante custava caro. Mas, na maioria das vezes, valia muito a pena. 

    O “Palestrante” Lula (grafado desse jeito pela própria empresa em seus papéis internos) passou a ser mobilizado para atuar em locais onde a Odebrecht enfrentava pepinos em seus contratos.

    Em 1º de maio de 2011, Lula se comprometeu, por R$ 330 mil, a desembarcar na Venezuela no início de junho para falar sobre os “Avanços alcançados até agora pelo Brasil”.

    A descrição das atividades que constam da cláusula 1.1 do contrato dizia que o “Palestrante” não participaria de qualquer outro evento além daqueles descritos “exaustivamente” no anexo 1.

    O tal anexo, no entanto, possui duas linhas que mencionam apenas que o ex-presidente ficaria hospedado no Hotel Marriott de Caracas.

    Quando superposto aos documentos do Instituto Lula sobre o mesmo evento, vê-se que Lula se encontrou com o empresário Emílio Odebrecht, pai de Marcelo Odebrecht, hoje preso em Curitiba, e com o então presidente venezuelano, Hugo Chávez, morto em 2013.

    Era um momento de tensão entre o governo venezuelano e a empreiteira, que cobrava uma dívida de US$ 1,2 bilhão.

    Telegramas sigilosos do Itamaraty sugerem que Lula e Chávez trataram sobre a dívida. A Odebrecht construía, desde 2009, a linha II do Metrô de Los Teques e a linha 5 do Metrô de Caracas.

    Fruto de uma negociação entre Lula e Chávez, o projeto foi irrigado com US$ 747 milhões (R$ 1,2 bilhão, em valores da época) em empréstimos do BNDES.

    A pressão de Lula surtiu efeito. Quatro dias após a visita do ex-presidente a Caracas, Chávez se encontrou com a presidente Dilma em Brasília.

    Naquele momento, a dívida com a Odebrecht já estava acertada. As duas obras são investigadas pelo Ministério Público Federal e pelo Tribunal de Contas da União.

    A principal suspeita, conforme revelou ÉPOCA em maio, é que os recursos tenham sido utilizados de forma irregular e de maneira antecipada sem o avanço do projeto – o dinheiro chegou, mas a obra não andou.

    Em seu depoimento ao Ministério Público, Lula disse que não é lobista e “não nasceu” para ser consultor.

    Em alguns casos, as viagens de Lula eram sucedidas por concessões de empréstimos do BNDES para obras de infraestrutura no país.Angola é um exemplo disso.

    Desde 2011, a Odebrecht foi a que mais recebeu financiamentos do BNDES no país africano, que está no topo da lista de recursos destinados pelo banco para exportação.

    Entre abril de 2011 e abril de 2014, foram liberados US$ 3,1 bilhões dos cofres do BNDES para a Odebrecht.

    Nos dias 30 de junho e 1o de julho de 2011, Lula foi contratado pela Odebrecht para dar uma palestra na Assembleia Nacional em Luanda, capital da Angola, sobre “O desenvolvimento do Brasil – modelo possível para a África”.

    Em seguida, Lula se reuniu por 40 minutos com o presidente do país, José Eduardo dos Santos. Após a conversa, Lula se encontrou com Emílio Odebrecht e com diretores das empreiteiras Queiroz Galvão, Camargo Corrêa e Andrade Gutierrez.

    Lula aterrissou em São Paulo no dia 2 de julho, à 0h30. No dia 28 de julho de 2011, o BNDES liberou um empréstimo de US$ 281 milhões (R$ 455 milhões, em valores da época), tão aguardado pela Odebrecht, para a construção de 3 mil unidades habitacionais e desenvolvimento de infraestrutura para 20 mil residências em Angola.

    No dia 6 de maio de 2014, Lula e Emílio Odebrecht voltaram a se encontrar em Angola.

    O ex-presidente viajou, numa aeronave cedida pelo governo angolano, de Luanda para a província de Malanje, onde visitou a usina de açúcar e etanol Biocom, sociedade entre a Odebrecht Angola e a Sonangol.

    Em depoimento de sua delação premiada, o lobista Fernando Soares, o Baiano, disse que se associou ao empresário José Carlos Bumlai, amigo de Lula, para viabilizar a palestra do ex-presidente em Angola.

    Baiano atendia a um pedido de um general angolano, interessado no negócio. Lula estava a todo momento acompanhado por Emílio Odebrecht, pela ex-ministra do Desenvolvimento Social Márcia Lopes e pelo ex-deputado federal Sigmaringa Seixas, além de autoridades angolanas.

    Na manhã do dia seguinte, o ex-presidente teve uma reunião de cerca de uma hora com o presidente de Angola, José Eduardo dos Santos.

    Nesse encontro, discutiram, entre outros assuntos, a linha de crédito do BNDES para a construção da hidrelétrica de Laúca, segundo telegramas do Itamaraty.

    Em dezembro do ano passado, sete meses após a visita de Lula, o ministro de finanças de Angola, Armando Manuel, assinou o acordo de financiamento com o BNDES.

    Em maio deste ano, o presidente do banco, Luciano Coutinho, deu o último aval para a liberação de um empréstimo que pode chegar a US$ 500 milhões (R$ 1,5 bilhão).

    Questionado pelo Ministério Público, Lula disse que “nada foi referido sobre o financiamento do BNDES para a construção da hidrelétrica de Laúca e que o presidente José Eduardo nunca tratou desses temas”, embora documentos oficiais do Itamaraty mostrem uma versão diferente.

    “Não passa de uma ilação, porque o comunicante (do Itamaraty) não teria participado da reunião”, disse Lula.

    EFICIENTE Lula com Hugo Chávez em Caracas, em 2011, e trechos de seus contratos com a Odebrecht (abaixo). Após uma palestra de Lula, o governo venezuelano pagou uma dívida com a Odebrecht (Foto: Jorge Silva/Reuters)
    Lula com Hugo Chávez em Caracas, em 2011, e trechos de seus contratos com a Odebrecht. Após uma palestra de Lula, o governo venezuelano pagou uma dívida com a Odebrecht (Foto: reprodução)

    Em suas viagens pela América Latina e pela África, Lula era acompanhado de perto pelo diretor de relações institucionais da Odebrecht, Alexandrino Alencar, apontado como o lobista da construtora na Operação Lava Jato.

    Após quatro meses preso, o executivo foi libertado na sexta-feira por decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal, Teori Zavascki, após quatro meses preso em Curitiba, no Paraná.

    O contrato original, que selou a parceria da Odebrecht com Lula, leva a assinatura de Alexandrino e de Paulo Okamotto, braço direito do ex- presidente.

    Lula e Alexandrino se conhecem desde os tempos de Lula no Planalto. A proximidade entre eles era tão grande que se cumprimentavam com um beijo no rosto.

    Essa intimidade se intensificou após 2011, quando Lula passou a defender, ao lado de Alexandrino, os interesses da Odebrecht no exterior.

    Um relatório de perícia do MPF sobre os movimentos migratórios de Lula e o ex-funcionário da Odebrecht aponta que os dois companheiros compartilharam ao menos cinco voos juntos nos últimos quatro anos, de acordo com dados extraídos do sistema de tráfego internacional da Polícia Federal.

    Nesta semana passada, no depoimento ao Ministério Público, Lula manteve uma distância olímpica do amigo ao dizer que “Alexandrino era representante da Odebrecht, não sabendo precisar o cargo; que só tinha relação profissional com Alexandrino”.

    Uma viagem, um negócio (Foto: Revista ÉPOCA/Reprodução)

    Um dos destinos da dupla foi uma caravana para Cuba e República Dominicana entre 28 de janeiro e 3 de fevereiro de 2013.

    Lula recebeu R$ 373 mil pelas palestras. Naquela ocasião, Lula visitou o Porto de Mariel, parceria entre a Odebrecht e o governo cubano.

    Ao todo, a obra recebeu US$ 832 milhões do BNDES com um prazo para pagamento de 25 anos – e com uma parte das garantias atreladas à produção de fumo na ilha.

    Quatro meses após a passagem de Lula por Cuba, o banco estatal brasileiro liberou a quinta parcela do financiamento do projeto, de US$ 229,9 milhões (R$ 482,7 milhões), que estava represada devido ao atraso nos pagamentos e à falta de garantias para a operação.

    Em 31 de janeiro, Lula desembarcou na República Dominicana, onde se encontrou com o presidente Danilo Medina.

    E lá foi o líder petista visitar, novamente, outro canteiro de obras da Odebrecht. Seis meses depois, a Odebrecht conseguiu mais US$ 114 milhões (R$ 228 milhões) do BNDES para desenvolver o corredor Viário Norte-Sul no país.

    >> Documentos secretos mostram como Lula intermediou negócios da Odebrecht em Cuba

    Procurada, a Odebrecht afirma por meio de nota que mantém “uma relação institucional e transparente com o ex-presidente Lula.

    O ex-presidente foi convidado pela empresa para fazer palestras para empresários, investidores e líderes políticos sobre as potencialidades do Brasil e de suas empresas, exatamente o que têm feito presidentes e ex-presidentes de outros países, como Estados Unidos, França e Espanha”.

    A Odebrecht nega que Lula tenha feito lobby em seu favor junto a governos estrangeiros.

    O depoimento de Lula pode ter sido agradável, mas o Ministério Público Federal no Distrito Federal estuda formar uma força-tarefa de procuradores para investigar as suspeitas de tráfico de influência.

    Pediu até o compartilhamento de provas da Operação Lava Jato que mencionem o ex-presidente, a Odebrecht e o BNDES.

  • 13out

    REVISTA ÉPOCA

     

    Dilma sob ataque

    As derrotas desta semana passada ensinam que a presidente está sem poder exatamente onde não poderia: no Congresso, para onde convergem as ameaças a seu mandato

     

    TALITA FERNANDES E RICARDO DELLA COLETTA

    >> Versão reduzida da reportagem de capa de ÉPOCA

    Pim! A mensagem via WhatsApp espoucou no celular do líder do PMDB na Câmara, Leonardo Picciani, na quinta-feira, pouco antes das 11 horas da manhã.

    “É o Eduardo”, disse. Picciani estava abatido, dormira pouco. Na noite anterior reunira apenas um punhado de partidários em uma mesa sob um ombrelone na área externa de um restaurante para fumar um charuto e bebericar doses de licor.

    Embora revestida de cordialidade, a mensagem do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, informava a Picciani que ele fora desidratado pelo próprio partido e era também uma sinalização ao Palácio do Planalto de que o centro de irradiação da crise no Congresso não fora neutralizado.

    Cunha avisava ao correligionário que em minutos negaria publicamente qualquer envolvimento com a ação de partidos que debandaram da liderança do PMDB no dia anterior, implodindo o maior bloco parlamentar da Casa.

    Por volta das 11 horas, de fato, Cunha usou sua conta no Twitter: “Bom dia a todos. Quero desmentir que tenha participado da dissolvição do bloco do PMDB. O bloco foi feito para a eleição da mesa e não tinha qualquer compromisso de se manter por toda a legislatura. DEM, PRB e SDD (Solidariedade) já haviam saído”, disse, em três posts sucessivos.

    A política algumas vezes é uma novilíngua: quando se nega, se está afirmando.

    Cunha fora o articulador da dissolução do bloco, que resultou no esvaziamento de Picciani, expôs a fracassada iniciativa da presidente Dilma Rousseff de formar uma nova maioria na Câmara e resultou em mais uma dura derrota para o governo na semana passada.

    O PMDB é uma arena para mestres, não para amadores – e Picciani havia se revelado um amador.

    Revista ÉPOCA - capa da edição 905 - Dilma sob ataque (Foto: Revista ÉPOCA/Divulgação)

    Nesta semana, Dilma conheceu novo fracasso na tentativa de operar nessa seara de profissionais.

    Sua nova base de apoio, construída ao custo de uma reforma ministerial que substituiu seus homens de confiança pelos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e que deu sete ministérios ao PMDB – inclusive o da Saúde, uma das arcas de Orçamento mais cobiçadas da Esplanada –, falhou.

    Sua nova coalizão não conseguiu nem levar um número suficiente de parlamentares ao plenário para garantir a votação que manteria os vetos presidenciais à “pauta-bomba”, o conjunto de medidas que pode explodir o caixa da União.

    Foi a pior de suas derrotas – e elas foram muitas.

    Dilma perdeu também no Tribunal de Contas da União (TCU), que desaprovou suas contas do ano passado, adulteradas pelas pedaladas e por trapaças na contabilidade.

    Não foi apenas uma derrota histórica – a última vez em que o TCU rejeitara contas fora em 1937, com Getúlio Vargas.

    Foi uma derrota feia, pelo fato de o governo ter recorrido ao Supremo Tribunal Federal para afastar o relator do caso e brecar o julgamento – sem sucesso.

    Perdera também um dia antes no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que considerou, diante das evidências, necessário investigar se em sua campanha houve abuso de poder econômico e político.

    Mas é do Congresso que Dilma vai precisar para escapar da análise de suas contas e dos pedidos de impeachment que a circulam.

    O Congresso, um terreno com o qual Dilma nunca se importou muito, está dominado por seus adversários e armadilhas que seus aliados já demonstraram ter pouca habilidade para contornar.

    O Congresso decidirá o futuro de Dilma.
     

    RECORDE A presidente Dilma Rousseff no Palácio  do Planalto.  Três derrotas significativas na mesma semana  (Foto: Ueslei Marcelino/Reuters)

     

     

    O presidente da Câmara, Eduardo Cunha, está ameaçado na presidência da Câmara pela Operação Lava Jato.

    Na semana passada, investigadores revelaram que ele possui pelo menos US$ 2,4 milhões guardados em contas secretas na Suíça.

    Em condições normais, seria um adversário menos perigoso. Na gestão Dilma, no entanto, é um problema.

    Dentro de sua estratégia de atacar o governo para ofuscar sua difícil situação jurídica, Cunha agiu diretamente para implodir a nova e frágil base do governo.

    Nem precisou de muito esforço. Dilma contava que Picciani garantiria a presença do PMDB no plenário para preservar os vetos.

    O cálculo se mostrou um desastre. Picciani caíra em desgraça com parte do PMDB, que o acusa de usar a posição de líder para obter ministérios apenas para sua turma.

    Assim, ele não conseguiu entregar ao Planalto mais do que uma bancada rachada: apenas 37 dos 66 deputados do PMDB marcaram presença na sessão da quarta-feira.

    Picciani ficou mal também com os partidos aliados, pois estes não ganharam ministérios. Siglas como PP, PTB, PSD e PR passaram a bombardear o Planalto por considerar que a reforma não levou em conta seus interesses.

    Eduardo Cunha vinha pessoalmente articulando o desmembramento do bloco que antes tinha Picciani como líder.

    Na semana passada, terminou o trabalho. A implosão fez com que o PMDB passasse a ser a segunda força política da Casa; antes à frente de um bloco de quase 150 deputados, Picciani amanheceu a quinta-feira como líder de 68 parlamentares – e longe de conseguir coesão mesmo dentro desse grupo.

    Instigada por Eduardo Cunha, em conjunto a turma fez corpo mole para mostrar sua força. Embora o presidente do Congresso, senador Renan Calheiros (PMDB-AL), tenha convocado sessões para terça e quarta-feira, as votações não ocorreram pela falta de comparecimento de deputados da base.

    Cinicamente, dezenas deles circularam pelo plenário, mas não registraram presença para forçar o fim da sessão. Maior manifestação de má vontade não há. 

    O Palácio do Planalto reconhece as falhas da reforma ministerial, que foi arquitetada pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e era considerada por alguns a última cartada da qual dispunha Dilma para conseguir alguma estabilidade política para seu mandato.

    O governo novamente tentou isolar Cunha, desta vez ao negociar diretamente com Picciani, mas se viu obrigado a recuar.

    “É impensável fazer qualquer movimento na Câmara sem o Eduardo Cunha”, diz o líder do governo no Senado, Delcídio Amaral (PT-MS).

    Eduardo Cunha construiu em volta de si um arco de alianças com setores rebelados da base e com a oposição, muitos dos quais defendem o impeachment de Dilma.

    Parte dessa turma sabe que precisa dele para emplacar o impeachment; parte quer retaliar.

    Na terça-feira à noite, quando o governo já havia sofrido o primeiro revés no Congresso, o ministro-chefe da Casa Civil, Jaques Wagner (PT), se reuniu com Eduardo Cunha na residência oficial da presidência da Câmara, em Brasília.

    Wagner ouviu de Cunha que quem tem de garantir apoio ao governo são os líderes.

    “Eu cumpri meu papel institucional”, disse. De pouco adiantou a conversa, como se viu no dia seguinte.

    Na quinta-feira de manhã, após a segunda derrota, foi o ministro da Secretaria de Comunicação Social da Presidência, Edinho Silva, quem levou a Cunha apelos por uma trégua, num ritual de submissão simbólico que incluiu se deslocar às 8 horas da manhã até a residência da presidência da Câmara.

    De novo em vão. “O governo tem o que para oferecer ao Eduardo?”, afirma um aliado de Cunha. E, mesmo que Cunha se enfraqueça mais, Dilma tem poucas chances de recuperar o controle do Congresso.

    Não adianta: nada se faz na Câmara sem o apoio de  Cunha e de seus aliados, espalhados por todos os partidos.

     

    O ministro Augusto Nardes (Foto: Alan Marques/Folhapress)
    Dias Toffoli e ministro Gilmar Mendes  (Foto: Alan Marques/Folhapress)
    Leonardo Picciani (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

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