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  • 20out

    REINALDO AZEVEDO 2BLOG DE REINALDO AZEVEDO – VEJA.COM

     

    O milagre de Janot – Em entrevista absurda, Dilma trata petrolão como coisa estranha a seu governo

     

     

    Querem saber? Eu lamento meu gosto por política. Estou aqui a pensar se não é um vício, como o Hollywood que eu fumo — contra o bom senso, contra os meus médicos, contra a minha família…

    Há coisas que são verdadeiramente insuportáveis, que podem fazer mal à saúde mental. E, se querem saber, com alguma frequência, a imprensa contribui para esse fastio.

    Dilma concedeu neste domingo uma entrevista em Estocolmo, na Suécia.

    Num dado momento, travou-se esta conversa surrealista com jornalistas brasileiros.

    Jornalista – Presidente, o caso Eduardo Cunha repercutiu no mundo inteiro, foi notícia nos jornais do mundo inteiro. Isso não causa um certo constrangimento no governo brasileiro, embora seja o Poder Legislativo?

    Dilma – (pequeno riso irônico) Seria estranho se causasse. Ele não integra o meu governo. Eu lamento que seja um brasileiro, se é isso que cê tá perguntando. Eu lamento que seja com um brasileiro.

    Outro jornalista – Presidente, a senhora acha que é ruim para a imagem do país?

    Dilma – Olha, eu não diria… Eu acho que se distingue perfeitamente no mundo o país de qualquer um dos seus integrantes.

    Nenhum país pode ser julgado por isso ou por aquilo: nem o Brasil, nem a Suécia nem os EUA.

    E não se julga assim. Acho que isso é pergunta bastante facciosa, cê me desculpe. Eu lamento que aconteça com um brasileiro, com um cidadão brasileiro.

    Vamos botar ordem nesta bagunça moral, corrigindo perguntas e respostas.

    Em primeiro lugar, mais do que as acusações contra Cunha, o que é notícia no mundo inteiro é a roubalheira existente no Brasil.

    O petrolão, mais do que o caso do presidente da Câmara, varreu a imprensa internacional e expôs a lama dos governos petistas.

    Pergunta óbvia: caberia a Dilma fazer digressões sobre o seu adversário político, ou sua obrigação moral seria falar sobre o seu próprio governo, nesse particular?

    A propósito, me digam: o que é mais prejudicial para a imagem do Brasil? Haver um presidente da Câmara com contas na Suíça ou o país ser assaltado por uma quadrilha, com óbvias conexões com o poder político de turno?

    Cada um pergunte o que quiser, mas convidar Dilma a fazer considerações sobre Cunha ou é infantilismo ou é uma forma de engajamento.

    E agora vamos refletir um pouco sobre as respostas. Aquela que era a presidente do Conselho da Petrobras à época da compra da refinaria de Pasadena; aquela que comanda o setor energético brasileiro desde 2003; aquela que nomeou Nestor Cerveró para a direção financeira da BR Distribuidora depois de ele ter deixado a estatal; aquela que passou boa parte da campanha eleitoral de 2014 sem reconhecer os descalabros na empresa, é esta senhora que vem a público dizer que Cunha não pertence a seu governo?

    Esperem! Cunha não pertence a seu governo, mas Edinho Silva pertence e é seu homem forte.

    Ele é acusado por Ricardo Pessoa, em delação premiada, de uma doce extorsão de R$ 10 milhões — R$ 7,5 milhões dos quais foram pagos.

    E teriam ido para a campanha de Dilma.

    Aloizio Mercadante pertence. Ele é acusado pelo mesmo Pessoa de ter recebido R$ 250 mil em dinheiro vivo, pelo caixa dois, para a campanha eleitoral de 2010.

    Edison Lobão pertenceu. É um dos investigados da operação.

    Delcídio Amaral (PT-MS) é seu líder no Senado e é acusado por Fernando Baiano de ter levado entre R$ 1 milhão e R$ 1,5 milhão de propina na compra da refinaria de Pasadena e de ter participado de outro conluio no aluguel de navios-sonda.

    O mesmo Baiano diz ter reservado R$ 2 milhões para uma nora de Lula em outra operação.

    E Lula é hoje o coordenador político de Dilma.

    Avilta a inteligência que esta senhora trate o petrolão como se fosse uma coisa estranha a seu governo.

    Eis aí, meus caros! Eis o grande milagre de Rodrigo Janot: contribuiu para que Dilma fingisse que o escândalo lhe é estranho — como se ela não tivesse sido, quando menos, omissa a respeito — e deu a setores da imprensa a desculpa moral para igual fingimento.

    Incrível! Até parecia que as contas de campanha daquela que dava entrevista não estão hoje sendo investigadas pela Polícia Federal e por um processo no TSE.

    Ambas as ações podem resultar na cassação do seu mandato porque com poder para lhe anular a diplomação em razão do eventual uso de dinheiro sujo da Petrobras na campanha.

    Mas lá estava Dilma, concedendo uma entrevista, falando como se fosse magistrada. E a própria imprensa lhe concedeu essa licença.

    Com a devida vênia, a boa pergunta seria outra:

    “A senhora acha que o petrolão, que vigorou nos governos do PT, inclusive no seu, é ruim para a imagem do país?”.

    O que lhes parece?

    Publicado por jagostinho @ 09:12



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