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  • 28ago

    leonardo souzaLEONARDO SOUZA – repórter especial da Folha no Rio. Vencedor de dois prêmios Esso na Folha, atuou na cobertura de política e economia em São Paulo e Brasília.

    A expressão “faltar com a verdade” é um eufemismo para dizer que alguém mentiu.

    Em entrevista à Folha e a outros dois jornais nesta segunda-feira (24), a presidente Dilma Rousseff afirmou que só percebeu os sinais da grave crise que se avizinhava entre os meses de novembro e dezembro do ano passado, ou seja, após a eleição.

    Para usar outro eufemismo, os fatos contradizem a presidente.

    A equipe do então ministro Guido Mantega (Fazenda) definira em meados de 2014, conforme a Folha revelou em janeiro, todo o conjunto de mudanças nas regras trabalhistas que seriam anunciadas logo após a vitória de Dilma.

    Essas alterações, que limitam a obtenção do seguro-desemprego e do abono salarial, estão entre as principais iniciativas da economia de receitas para cobrir o rombo das contas públicas.

    Um integrante do time de Mantega confirmou à coluna que, muito antes da eleição, já se sabia da urgência em cortar despesas.

    Mas, por uma decisão política, essas medidas amargas e impopulares só poderiam ser anunciadas após a corrida presidencial. Evidentemente, impactariam (como impactaram) na opinião pública –menos votos.

    Em agosto, o governo reduziu em R$ 8,8 bilhões a previsão do gasto com o abono salarial para este ano. A revisão consta do PLOA (Projeto de Lei Orçamentária Anual) de 2015, enviado naquele mês pelo Planalto ao Congresso.

    A previsão foi feita com base nas novas regras trabalhistas que já estavam definidas pela Fazenda. Se a revisão foi enviada para o Congresso em agosto, os cálculos tinham sido feitos muito antes.

    Meses antes do novembro e dezembro admitido por Dilma.

    No dia 6 de novembro, o ainda ministro Mantega antecipou o que sua própria equipe já havia preparado.

    “Nós temos agora que fazer uma redução importante das despesas que estão crescendo, como o seguro-desemprego, abono salarial e auxílio-doença”, disse o ministro durante evento da FGV (Fundação Getulio Vargas) em São Paulo.

    Era notória na Esplanada dos Ministérios a interferência de Dilma na Fazenda. Mantega não fazia nada sem que Dilma soubesse.

    Difícil acreditar que a equipe econômica houvesse preparado pacote para remediar a crise e que a presidente não tivesse a menor ideia da gravidade do quadro econômico.

    Do mercado financeiro vieram diversos alertas de que a situação era muito ruim e que as contas do governo estavam em frangalhos.

    Um episódio marcou a eleição. No final de julho, o Santander enviou para seus clientes vips um informe sobre o impacto da corrida presidencial nos indicadores financeiros.

    No relatório, o banco espanhol avaliava que se Dilma subisse nas pesquisas e vencesse a eleição, a Bolsa cairia e os juros subiriam.

    O Santander ressaltava também que a economia brasileira já estava muito mal, com baixo crescimento, inflação alta e déficit nas trocas comerciais com o mundo.

    Na ocasião, a presidente Dilma classificou a análise do banco de “inadmissível” e “lamentável”.

    O ex-presidente Lula disse que a autora do informe do Santander não entendia “porra nenhuma de Brasil” e que deveria ser demitida.

    Cedendo à pressão, o Santander demitiu a gerente de investimentos que escreveu a análise, além de dois de seus colegas e a superintendente da área, que aprovaram o texto.

    Desde a vitória de Dilma, o quadro não poderia ser pior.

    A inflação beira os 10% ao ano, a economia entrou em recessão, o desemprego bate recordes, o dólar está em sua maior cotação em 12 anos, o Banco Central não para de subir os juros…

    Não se sabe se a gerente de investimentos do Santander ainda está desempregada.

    Estando ou não, Dilma faria um bem muito grande para si mesma se a contratasse.

    Dificilmente correria o risco de vir a público novamente no futuro admitir que errou ao não compreender o óbvio sobre economia.



    Publicado por jagostinho @ 09:23



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