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  • 31jan

    FOLHA DE SÃO PAULO

    É hora de pôr os pingos nos is. Deltan Dallagnol, procurador da República do Paraná, afirma que as empreiteiras “não são vítimas, mas protagonistas” do petrolão.

    Contesta, assim, a linha de defesa de empresários que acusam então diretores da Petrobras de extorqui-los. Antonio Figueiredo Basto, advogado de Alberto Youssef, por sua vez, diz que seu cliente não era chefe de nada e servia ao projeto de poder do PT. Vamos ver.

    Os diretores das empreiteiras e Youssef cometeram crimes, e isso é inequívoco. Caso, no entanto, se perca de vista o principal, o rigor da Justiça acabará, mais uma vez, por endossar uma farsa. Explico.

    Para evidenciar o protagonismo das empreiteiras, Dallagnol afirma que “a corrupção é praticada há tanto tempo por essas empresas que se tornou um modelo de negócio que objetivava majorar lucros”.

    Ok. É claro que a corrupção no Brasil e no mundo não começou com as gestões petistas. Vem lá do tempo da serpente, da maçã e… da proibição de comer maçãs.

    É preciso distinguir, no entanto, a ilegalidade como desvio da norma –por obra de salafrários agindo sozinhos ou em bando– daquela outra, sistêmica, que se revela como forma de conquista do Estado, com a constituição de um governo paralelo, gerenciado por um ente de razão degenerado.

    O emblema desse procedimento foi eternizado por reportagem de 2011 da “Veja”: câmeras flagraram autoridades da República se esgueirando nos corredores do hotel Naoum, em Brasília, para se encontrar com o “consultor” José Dirceu.

    Lá estavam, nuas e oferecidas, as autoridades de programa. De quanto terá sido o michê? Um dos convivas era o então presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli.

    A sociologia do patrimonialismo é fecunda no Brasil. Gerou-se, por óbvio, uma linha de pesquisa e especulação compatível com a história, com os hábitos, com os costumes.

    Mas estávamos despreparados para o neopatrimonialismo petista, de rapina, que se vende como estratégia de resistência “às elites” tradicionais, ainda que o partido tenha se ligado a tudo o que não presta no país –de velho ou de novo, de esquerda, de direita ou de centro.

    Converse com qualquer empresário. É impossível, hoje, fazer negócio com o setor público sem pagar a “Taxa Projeto de Poder”.

    E há uma unanimidade: nunca antes na “historiadestepaiz” –esse tempo político da vigarice mais asquerosa– houve tanta voracidade, ousadia e insensatez.

    Mas deixei uma ponta solta no texto. Afirmei que a Justiça não pode, uma vez mais, endossar uma farsa.

    Explico. Dirceu, José Genoino e Delúbio Soares gozam já das regalias de seus respectivos lares. A banqueira Kátia Rabello e o publicitário Marcos Valério, no entanto, estão em cana.

    Até parece que poderiam ter feito sozinhos o mensalão e que aqueles crimes não eram parte da estratégia de tomada do Estado, liderada, como registrou Celso de Mello, por “marginais do poder”.

    A exemplo do doutor Dallagnol, avalio que nem Kátia nem Valério eram vítimas. Mas, definitivamente, não eram protagonistas.

    E jamais deixarei de especular sobre uma obviedade: os crimes do mensalão e do petrolão envolveram muitos agentes e interesses. Ocorriam no submundo.

    Se há desentendimentos entre os que são santos, imaginem entre os que não são. Quem dava o murro na mesa: “Vamos pôr ordem nesta orgia, companheiros!”?

     
    reinaldo azevedoReinaldo Azevedo, jornalista, é colunista da Folha e autor de um blog na revista ‘Veja’. Escreveu, entre outros livros, ‘Contra o Consenso’ (ed. Barracuda), ‘O País dos Petralhas’ (ed. Record) e ‘Máximas de um País Mínimo’ (ed. Record). Escreve às sextas-feiras.



    Publicado por jagostinho @ 12:06



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