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  • 14dez

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    REVISTA ÉPOCA

    O Natal é hipócrita. Podem me atirar pedras. Reafirmo. É uma das duas datas mais responsáveis por mentiras. A outra é o aniversário, pelo qual acabo de passar. Fiz 63 anos. Nada pior do que ouvir frases consoladoras do tipo:

    – Poxa, mas você não parece.

    Como se aparentar a própria idade fosse horrível. E daí se parecer 60, 70, 80? Deveria parecer 20? Nem com toda plástica e Botox do mundo!

    No máximo, ficaria com a cara paralisada e os olhos puxados, à oriental, como acontece com quem exagera em plásticas. Para quê? Para parecer alguém que não quer aparentar a idade que tem. Mas que aparenta. Deu para entender?É como se diz por aí:

    – Ixi, ela está com o rosto todo trabalhado.

    Trabalhado quer dizer: reformado. Se pudessem, alguns plásticos ou dermatologistas passariam massa corrida e lixa industrial para garantir o resultado. Ainda não surgiu nenhum produto à altura. Ainda.

    Meu aniversário é próximo do Natal, portanto, em dezembro, vivo um festival de hipocrisia. Principalmente em relação a presentes.

    Não há nada mais difícil do que surpreender alguém com algo de que realmente goste. A não ser que a gente dê, por exemplo, um Land Rover zero.

    Ou um brilhante do tamanho de uma dentadura. Surpreender é difícil. Se alguém anuncia o presente desejado, também não tem graça.

    Como pedir: cuecas, meias, CD do Leonardo, um pacote de ração para cães para economizar nos gastos, um mês de academia. Pior, fazer cara de gentil e dizer:

    – Acho ótimo você dizer o que quer, assim não erro.

    Natal é teste do Enem, que a gente não pode errar? As pessoas espertas confessam:

    – Meu maior sonho é conhecer o Caribe!

    Finjo que não entendo e digo:

    – Sabe que eu não? O Brasil tem praias tão lindas. Já foi para Santos?

    Em seguida, começo a falar das belezas de Santos, enquanto o outro me encara com ódio. Santos é uma cidade adorável no litoral de São Paulo, onde muitos aposentados adoram viver.

    Não é conhecida pela beleza das praias, digamos assim.

    Confesse. Nunca mentiu no Natal? Nem quando ganhou algum horror? E falou:

    – É exatamente o que eu precisava!

    O pior é quando esse horror é objeto de decoração. Quem deu, cada vez que vai em casa fica olhando para ver onde pus.

    Estaria atirado no fundo de algum rio, se não fosse a fiscalização. Então escondo.

    Cada vez que vou receber a visita, tenho de lembrar:

    – Onde estão aqueles dois coelhinhos de porcelana? Tenho de pôr na mesa da sala.

    A campainha toca, e eu ainda correndo atrás dos coelhinhos. Ser gentil não é uma arte, também pode ser um martírio.

    Há pessoas que simplesmente ganham o presente de Natal – isso acontece muito com amigos secretos –, agradecem e choram de emoção.

    Depois embrulham, botam no armário e aguardam o próximo Natal, para reciclar. Isso costuma dar tão errado que nem tenho palavras.

    A mãe de um amigo devolveu, dois anos depois, o perfume que a própria irmã dele tinha dado, ainda embrulhado no mesmo papel de presente.

    Mãe e filha acabaram aos gritos, enquanto as pessoas se esforçavam para cantar “Jingle bells”. Eu mesmo reciclei um presente, não digo quando nem onde, por discrição.

    Só sei que era uma bolsa linda, masculina, que o contemplado jamais compraria. Nem eu, aliás. Era cara. Sou do tipo que usa sempre o mesmo relógio, a mesma bolsa, até se desfazerem. Resolvi passar adiante.

    Embrulhei num lindo papel de presente, botei fitas. Na hora do amigo secreto, quando o contemplado abriu o presente emocionado… bem em cima, exatamente em cima, estava o cartão de quem me dera, endereçado a mim mesmo.

    Agora me expliquem: como não vi o cartão quando embrulhei? Como, como? Parece que a tal Lei de Murphy é inexorável.

    Quando é para dar errado, dá errado. Mas não deu. Ele ficou abismado contemplando a pasta em couro preto. Tanto como eu, contemplando o cartão.

    Aí meus dedos se moveram mais rápidos que as patinhas de uma aranha. Ainda não sei explicar como consegui, como ninguém viu. Empalmei o cartão e fugi para o toalete.

    Nem tive coragem de jogar fora. Rasguei e engoli. Na volta, o presenteado ainda chorava de emoção com minha generosidade. Chorei junto.

    Já me preparo para as novas mentiras, inevitáveis no Natal. Neste ano, a família quer fazer em minha casa.

    Vamos combinar: dar presentes é muito difícil. Uma coisa certamente ninguém espera receber: sinceridade.

    Se é para mentir, que venha o Natal.

    Já estou preparado.



    Publicado por jagostinho @ 11:49



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