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  • 16dez

    DEMÉTRIODEMÉTRIO MAGNOLI, doutor em geografia humana, é especialista em política internacional. Escreveu, entre outros livros, “Gota de Sangue – História do Pensamento Racial” (ed. Contexto) e “O Leviatã Desafiado” (ed. Record).

     

    O país da Copa é grande e bobo. “Esta será a Copa das Copas”, disse a presidente, de boca cheia, na cerimônia de sorteio dos grupos.

    No país dela, que é o nosso, ninguém circula nas cidades travadas, nas estradas paralisadas, nos aeroportos congestionados -mas 12 arenas superfaturadas, em recordistas 12 sedes, receberão a mais cara das Copas.

    Do enclave do Sauípe, uma bolha segura, esparramou-se pelo mundo a linguagem do verde-amarelismo balofo.

    No país da Copa, um governo “popular” e “de esquerda” reverbera, tanto tempo depois, as frases e os tiques do general-presidente que gostava de futebol. Há um cheiro de queimado no ar.

    “O Brasil está muito feliz em receber todos nesta Copa porque somos um povo alegre e acolhedor.

    ” Violência é a palavra da hora -e ela surge em curiosas associações com a “Copa das Copas”.

    A barbárie das torcidas do Atlético Paranaense e do Vasco não foi deplorada por seus significados intrínsecos, mas pelas mensagens que supostamente envia ao mundo.

    Gaiatos da política, do marketing e do colunismo ensaiaram uma sentença que menciona a violência “dentro e fora dos estádios”.

    É senha, com endereço certo: no saco fundo, cabem tanto os torcedores selvagens e os sumidos black blocs quanto manifestantes pacíficos mas indignados com a “Copa das Copas”. O pau vai comer.

    “Não repara a bagunça” -o dístico popular nacional, candidato eterno, e perfeito, a substituir o “Ordem e Progresso” no núcleo de nossa bandeira, trai o medo da vergonha.

    Joseph Blatter entendeu e traduziu, chamando-nos a congelar a indignação, sublimar as insatisfações, colocar entre parêntesis as divisões.

    A unidade em torno de um bem maior, que é a imagem do país diante do planeta que nos vê: eis a gramática do discurso político sugerida pelo chefão da potência ocupante.

    No país da Copa, a convocação à unidade já foi integrada ao discurso da publicidade. Será repetida à exaustão, como uma ladainha, até o apito final. Não estrague a festa, estúpido!

    “Será uma Copa para ninguém esquecer”, jactou-se a presidente, formulando uma ameaça involuntária.

    A partir do Gabinete de Segurança Institucional, estrutura-se uma operação de guerra que abrange as três forças em armas e um desdobrado aparato cibernético.

    Nas telas dos computadores do sistema de vigilância, cada arena figura como ponto focal de um envelope tridimensional de segurança.

    Nas ruas, o controle físico do perímetro das arenas, a cargo das PMs, terá a missão de proteger as marcas dos patrocinadores oficiais da ameaça simbólica representada pela presença de manifestantes.

    Jamais, em tempo algum, o Estado serviu tão direta e exclusivamente a interesses privados. Não: ninguém esquecerá.

    O país da Copa não se respeita. Ontem, o partido do governo celebrou políticos condenados por corrupção -e, sob o silêncio cúmplice do presidente de facto e da presidente de direito, achincalhou um STF composto por juízes que eles mesmos indicaram.

    O país da Copa perdeu o autorrespeito. Os líderes governistas manobram para o Congresso não ouvir um ex-secretário nacional de Justiça que acusa o governo ao qual serviu de operar uma fábrica de dossiês contra adversários políticos.

    O país da Copa perdeu o respeito. As lideranças do PSDB preferem empregar táticas diversionistas vexatórias a colher assinaturas para uma CPI destinada a investigar todos os contratos estaduais e federais firmados com a Siemens. Yes, nós gostamos de futebol.

    No vale-tudo da nova ordem do racialismo, perdemos, ademais, um senso básico de decoro: eu li -aqui mesmo, não nas catacumbas da internet!- que Fernanda Lima e Rodrigo Hilbert formaram “um casal mais parecido com representantes de afrikâners”.

    Cores, rancores. No país da Copa, nativos felizes, contentes, de bunda de fora, tocavam caxirola.

    Foi bonita a festa, pá -pena que nem começou.



    Publicado por jagostinho @ 18:47



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