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  • 23out

    ELIO GASPARIELIO GASPARI, nascido na Itália, veio ainda criança para o Brasil, onde fez sua carreira jornalística. Recebeu o prêmio de melhor ensaio da ABL em 2003 por “As Ilusões Armadas”.

     

    Estimada senhora,

    Logo na minha avenida? Nunca pensei que meu nome, na Barra da Tijuca que projetei, viesse a ser mencionado num confronto entre militares e cidadãos.

    A senhora ainda estava na faculdade quando o embaixador inglês, pai de uma linda moça chamada Georgiana, convidou-me para um coquetel em homenagem aos bailarinos Margot Fonteyn e Rudolf Nureyev.

    Puxando conversa, um diplomata americano perguntou-me se eu aceitaria um convite para visitar seu país.

    Eu respondi que iria, com todo gosto, quando o último soldado deixasse o Vietnã.

    Outro dia relembrei esse episódio com o general Giap, que acaba de chegar aqui e lembra-se da senhora, que tirou um retrato ao seu lado em Hanói.

    Logo na minha avenida, a senhora pôs militares brasileiros para jogar bombas de gás numa manifestação em que havia mais de mil soldados e menos de 300 manifestantes, na maioria sindicalistas, mais algumas dezenas de mascarados.

    Logo na avenida de um cidadão que sempre tentou ficar longe de controvérsias políticas.

    Não entendo nada de petróleo, muito menos de operações militares, mas acho que o general Ernesto Geisel, com quem conversei, entende.

    Ele está um zorrilho. Primeiro porque acha que a Petrobras não tem nada que vender reservas de petróleo, assim como o governo não tem que segurar a inflação comprimindo o preço dos combustíveis.

    Até hoje ele tem raiva do Delfim Netto porque fez isso nos anos 70. O Geisel diz que em vez de mandar mil homens e uma fragata para a minha avenida, a senhora devia ter mandado umas dezenas de ônibus.

    Um capitão marcaria linhas no chão, e quem as ultrapassasse seria detido. Se todos os 400 manifestantes cruzassem a linha, bastariam dez ônibus para tirá-los de lá até o dia seguinte.

    O Geisel reclama por termos vendido uma reserva de petróleo.

    Já o Roberto Campos riu quando soube que apareceu um só consórcio interessado no campo de Libra, arrematando-o pelo lance mínimo, diz que leilão assim até o Stálin faria.

    Segundo o Campos, se a sua máquina estivesse funcionando durante a Copa de 1950, o presidente Dutra teria comemorado o 2 x 1 do Uruguai. Afinal, nossa seleção teve um saldo de 16 gols, seis a mais que o campeão.

    Eu não entendo dessas coisas, mas vejo que o seu governo, bem como administrações estaduais e municipais, estão deslizando para um clima em que substitui-se o debate por eventos.

    As controvérsias foram transformadas em confrontos, e a manifestação mais ostensiva do poder público está na mão da polícia.

    Isso não faz bem. Começamos a nos confrontar por causa de um aumento de tarifas de transportes impostas por prefeitos onipotentes que recuaram depois que a rua protestou.

    Agora temos confrontos por causa de cachorros. Será que perdemos a capacidade de conversar, admitindo a possibilidade de dar razão ao outro?

    Até o Oscar Niemeyer está preocupado, mas só confessa isso quando estamos sozinhos.

    Quero pedir um favor à senhora e ao prefeito do Rio: Quando houver a possibilidade de pancadaria na avenida Lúcio Costa, por favor, troquem seu nome.

    Durante o charivari ela passará a se chamar “Avenida Ato Institucional nº 5”.

    Feita a paz, se quiserem, recoloquem minhas placas.

    Do seu patrício respeitoso,

    Lucio Costa

    Publicado por jagostinho @ 09:32



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