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  • 21out

    JOÃO PEREIRA COUTINHOJOÃO PEREIRA COUTINHO – escritor português – doutor em Ciência Política. É colunista do “Correio da Manhã”, o maior diário português. Reuniu seus artigos para o Brasil no livro “Avenida Paulista” (Record). 

    Todos os dias, lá aparece uma descoberta científica qualquer.

    Parkinson, Alzheimer, AIDS, câncer – a cura está próxima e a imprensa, em sua histeria visceral, fala em dois anos, talvez três, seguramente não mais que dez para livrar o mundo dessas maleitas fatais.

    Depois, nos dias seguintes, nos meses seguintes, nos anos seguintes, a notícia regressa ao esquecimento e já ninguém fala daquele assunto.

    Que será suplantado por outra descoberta científica –a promissora! a definitiva!– capaz de derrotar finalmente a mesma lista de doenças fatais.

    Como explicar esta sucessão de grandes notícias que se revelam pífias notícias, seguidas por um novo ciclo de grandes notícias que serão pífias notícias –“ad infinitum”?

    A revista “The Economist”, em sua última edição, levanta o pano: na frenética competição científica em que vivemos, devidamente captada pelo mantra “publish or persish”, parece que cresce o número de pesquisas que carecem de verificação rigorosa.

    Sem falar da profusão de “papers” devidamente “cozinhados” para apresentarem resultados “saborosos”.

    Mais: conta a revista que os “resultados negativos” das várias pesquisas, hoje, representam apenas 14% dos “papers” científicos (em 1990, representavam 30%).

    Para os editorialistas da “Economist”, isso significa um lamentável empobrecimento do “métier” e um risco para a pesquisa séria e fecunda. É uma forma de ver as coisas.

    Pessoalmente, o que sempre me incomodou neste carrossel científico, e creio que já o escrevi várias vezes, é imaginar as incontáveis famílias com doentes graves que, todos os dias, confrontadas com uma qualquer promessa de cura ao virar da esquina, oscilam continuamente entre a esperança extrema e a desilusão extrema.

    Só para que cientistas e respectivos laboratórios possam mostrar trabalho (e, claro, receber mais um cheque).

    Haverá forma mais refinada de tortura para quem já tem tortura que chegue em suas vidas?

    2.
    E falando de grandes cientistas: não é simplesmente delicioso que Peter Higgs, um dos Nobel da Física pela descoberta do bosão com o seu nome, tenha saído para almoçar quando foi anunciado o prêmio?

    Contam os jornais que foi uma vizinha a dar-lhe os parabéns. “Parabéns porquê?”, perguntou ele, que não usa celular e não sabia de nada.

    Já tinha acontecido no passado com a escritora Doris Lessing: ela, chegando a casa com sacolas de mercearia, e os jornalistas à porta.

    “Parabéns, sra. Lessing.” E quando lhe comunicaram o honroso fato, ela pousou as sacolas no chão, ligeiramente fatigada, como se dissesse: “Só me faltava mais essa.”

    No meio da cultura narcísica em que vivemos, ver o comportamento desses dois gênios é uma lição de grandeza –e uma exibição de pura liberdade.

    3.
    Anos atrás, lembro-me de assistir a um documentário inglês que nunca mais esqueci. Sobre a formação dos taxistas em Londres. Coisa exigente?

    Digamos apenas isso: desconfio que um doutorado em Harvard seria ligeiramente mais fácil.

    Para dirigirem em Londres, os candidatos entregam-se a uma preparação minuciosa, fatigante, demencial, memorizando cada avenida, rua, beco com precisão fotográfica.

    Depois, quando se sentem preparados para o exame oral, apresentam-se perante o Grande Inquisidor – uma figura sinistra em seu requintado sadismo – que colocava ao candidato tremelicante perguntas do gênero:

    “Eu estou na rua X e pretendo ir para a rua Y. Qual o trajeto mais próximo?”

    O candidato descrevia o trajeto de memória – isso, claro, se não desmaiasse ou tivesse um infarto entretanto.

    Não sei como estão as coisas hoje em dia. Em Londres, não tenho tido motivos de queixa.

    Em Lisboa, pelo contrário, cresce o número de motoristas que desconhece endereços básicos.

    De tal forma que eu próprio já me ofereci várias vezes para dirigir o táxi.

    A culpa, segundo parece, é do GPS: se o endereço não existe no GPS, nada feito. Usar a cabeça (e a memória) é primitivismo do século passado.

    Aliás, a cultura do GPS é tão avassaladora que, segundo as notícias, as próprias gôndolas de Veneza passarão a ter um aparelho para ajudar os gondoleiros.

    Imagino a cena: o casal, abraçado e apaixonado, passando sob a Ponte dos Suspiros. E, no momento em que se preparam para um beijo, a maquineta dispara com a sua voz mecânica: “Daqui a trinta metros, vire à direita.”

    Se o amor sobrevive a isto, sobrevive a tudo.

    Publicado por jagostinho @ 16:08



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