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  • 14mar

    J. Agostinho sou um leitor do seu blog diariamente, gostaria de ver essa carta publicada.

    Dr. Mesael Caetano dos Santos

    Advogado – OAB/PR 45102

    > Dr. Mesael, agradecendo o privilégio de sua preferência pelo Blog, vaí aí a Carta, na íntegra:

     

    CENTRO CULTURAL HUMAITA

    CENTRO DE ESTUDO E PESQUISA DA ARTE E CULTURA AFRO-BRASILEIRA

    Curitiba, 12 de março de 2012

    À Prefeitura Municipal de Curitiba

    ACC/Sr. Prefeito Luciano Ducci

    Ref.: RACISMO VELADO E INSTITUCIONAL NA CAPITAL MAIS NEGRA DO SUL DO PAÍS

    Prezado Senhor Prefeito,

    PARABÉNS CURITIBA pelos seus 319 anos!

    E parabéns Prefeito, pela sua atitude ética de baixar o maior salário de Prefeito do Brasil!

    Pegou muito bem! Mesmo sendo ano eleitoral.

    Esperamos que este ano não se repita o vergonhoso APAGAMENTO IDENTITÁRIO DO POVO AFRO que foi a campanha “Curitiba Não Pára”, no aniversário de 318 anos da cidade.

    Material este que pode ser usado por antropólogos e sociólogos para ilustrar o racismo velado e institucional em Curitiba.

    Em 2011 celebramos, entre outras coisas, o Ano Internacional dos Povos Afrodescendentes e o ano da Itália no Brasil. Já anunciamos desde começo de 2011 a importância da celebração proposta pela ONU, que, em comparação com as outras etnias celebradas, foi tratada com desdém pelo Instituto de Turismo e pela Fundação Cultural.

    Vimos claramente a diferença de tratamento para os italianos e para os afrodescendentes. Para uns tudo, para os outros nada.

    Para nós do Centro Cultural Humaitá não foi surpresa, pois temos acompanhado as ações da Prefeitura e do Estado e comprovado o apagamento identitário do povo afro e o fortalecimento do racismo institucional operado por esta municipalidade.

    foram feitas várias cartas protocoladas na Prefeitura sobre o assunto. As solicitações de placas indicando a localização do Pelourinho e do maior portal africano do mundo, até hoje não tiveram resposta.

    No entanto, temos testemunhado vários episódios de placas sendo colocadas na cidade, perpetuando a memória de políticos locais.

    Na frente do tubo central tem um exemplo gritante! Temos visto também ações apagando sua memória, como foi o caso do sumiço da placa do Palácio Iguaçú.

    No caso dos povos afrodescendente, a tentativa de escamotear a história é recorrente. E neste caso, é por motivo de racismo velado e institucional. As placas registram a história da nossa cidade no imaginário coletivo!

    O senhor acompanhou o episódio da última carta de indignação sobre as placas da Serra do Mar, endereçada ao Prefeito eleito de Curitiba e atual Governador do Estado, de quem o senhor foi vice?

    E no caso das placas que mostram a forte presença e contribuição do povo negro para o crescimento da cidade?

    Porque, quando elas existem, somem e não são recolocadas? A isto chamamos de apagamento identitário, Senhor Prefeito.

    Na Câmara dos Vereadores tem um painel gigante mostrando o povo “loiro” do Paraná. Lá também o racismo velado e institucional perdura até hoje.

    E, por mais cartas e solicitações que façamos, a grande maioria é “daltônica” e dá- se ao luxo de acreditar que racismo não existe.

    O prefeito eleito garantiu que esta situação iria mudar, mas saiu sem que nada tivesse sido feito.

    Passou o mandato para o senhor, e perguntamo-nos, o que tem sido feito para minimizar o RACISMO VELADO E INSTITUCIONAL?

    No evento “Curitiba Nós” encontramos com o senhor que declarou olhando em nossos olhos não ter recebido nossas cartas.

    Na audiência Pública que aconteceu no Largo da Ordem, lhe entreguei em mãos todas as nossas cartas de reivindicação.

    O senhor disse que nenhuma reivindicação ficaria sem resposta, por se tratar de uma audiência pública.

    Prosopopéia flácida!

    As nossas ficaram. O senhor determinou ao seu assessor que cuidasse do assunto, mas nada aconteceu…

    No dia 30 de janeiro a Gazeta do Povo noticiou que a nossa municipalidade não responde aos protocolos. E contrariamente ao que o senhor disse na audiência pública, também não responde às demandas da sociedade.

    Ou o senhor faltou com a verdade, ou o senhor está mal assessorado. Conosco, isso vem se repetindo desde 2009, quando começamos à protocolar solicitações à esta municipalidade.

    Por isso a expressão “racismo velado e institucional” é tão presente em nossos discursos.

    “Temos todos, por ação ou omissão, estímulo ou incompreensão, responsáveis pelos fatos da história.” (T. Vilella, na placa da Praça Osório)

    2012 é ano eleitoral e vamos encontrar o senhor e seus colegas candidatos com seus projetos maravilhosos…

    É hipocrisia hoje um candidato não ter em seus planos um projeto sério e contundente para acabar com o racismo velado perpetrado a mais de 300 anos em nossa cidade.

    A sua campanha vai dizer que tem. Mas agora o senhor está no poder, o que o Senhor fez para acabar com esse problema?

    Nós também denunciamos o material gráfico produzido pela municipalidade, que mantém o povo afro na invisibilidade.

    Em reposta, houve um movimento da Prefeitura para responder ao caso na Campanha “Em Curitiba tudo é pra família” – das cerca de 600 linhas de ônibus, tem uma (01) usando uma foto de um pai negro com um menino, na Linha do Boqueirão.

    Ao contrário das outras linhas, onde a etnia européia aparece em diversas formas possíveis de família…

    Nos tubos, também foram usados adesivos gigantes mostrando famílias (brancas), como se na linguagem subliminar estivesse sendo dito que a família negra não é constituída, com avô, avó, mãe…, como se os
    povos negros não tivessem fenótipos diferenciados.

    Nós pedimos isonomia e foi esta a resposta que a Municipalidade nos deu. Esta é a isonomia que o senhor tem para nós, Senhor Prefeito?

    Em Curitiba, tudo é para a família?

    Ou apenas para as famílias que têm se revezado no poder, nos últimos 300 anos (cf. artigo científico do sociólogo Ricardo Costa de Oliveira, intitulado “O silêncio dos vencedores”)?

    O senhor sabia que Curitiba é a capital mais negra do sul do país?

    O senhor tem que zelar pela cidade, então porque o senhor não zela também pelo povo afrodescendente?

    Por que a sua gestão não tem direcionado uma porcentagem de energia, de inteligência, de verba, para este segmento étnico?

    A Secretaria Municipal de Educação precisa de atenção especial para implementação da lei 10.639, que determina o ensino da história e cultura africana, indígena e afrobrasileira em sala de aula.

    A Fundação Cultural precisa apoiar as festas importantes do calendário afro. Quem na sua gestão pode responder por esta parcela da população?

    Existe algum departamento responsável ou atuando efetivamente na defesa deste segmento, Senhor Prefeito?

    Não. A isto dá-se o nome de racismo institucional.

    O setor de Segurança Pública, no entanto, se ocupa mais diretamente da nossa população, na sua gestão…

    Atirando contra a multidão de foliões no carnaval… Torturando cidadãos (negros) a procura de armas, como vimos no episódio da UPS do Uberaba.

    A sua gestão é conivente com estas ações…? A polícia admitiu com toda a naturalidade que houve excesso.

    Felizmente, as coisas estão mudando. Até parece que foi ontem a proibição dos fandangos e batuques pela Câmara de Vereadores…

    Hoje é diferente, apesar do racismo velado e institucional perdurar, a polícia, a instituição historicamente responsável por aplicar o racismo na prática em nossa sociedade, é obrigada a afastar seus membros, caso eles ajam de forma racista.

    Os meios de comunicação estão denunciando o fato discrepante acontecido no Uberaba contra o garoto Ismael, que foi torturado e coagido a mentir para salvar sua vida, pelo motivo único de ser negro e ainda haver racismo VELADO E INSTITUCIONAL em nossa sociedade…

    Sua gestão é conivente com o racismo institucional e velado? Os vereadores, seus assessores, muitos insistem em dizer que isso não existe. Mas agora até a polícia admite que há “excessos”.

    Contra fatos não há argumentos. A própria FIFA faz campanhas há 11 anos contra o racismo nos grandes eventos, como a Copa do Mundo.

    Seus assessores para assuntos da Copa do Mundo estão atentos a este fato?

    No meu caso, Senhor Prefeito, como homem negro, eu vejo excessos desde sempre: excessos da polícia,
    dentro da escola, no sistema de saúde, no setor de comunicação, enfim, nos diversos setores do poder
    público.

    Graças às mídias digitais, hoje, estes fatos são disseminados rapidamente. O fato ocorrido com o garoto Ismael não é único, no Ministério Público existem inúmeras denuncias de racismo em diversas áreas do setor público.

    Até onde vai a sua ética, Senhor Prefeito?

    Apenas baixar seu salário não resolve todos os problemas…

    Ficamos no aguardo da audiência que o senhor prometeu ao Movimento Negro, a fim de discutirmos propostas concretas para acabar com este cancro social.

    Atenciosamente,

    Adegmar J. Silva Candiero
    Presidente do Centro Cultural Humaita
    Centro de Estudo e Pesquisa da Arte e Cultura Afrobrasileira


    Publicado por jagostinho @ 09:18



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