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  • 05mar

    ARTIGO DE RUBENS RICUPERO/FOLHA DE SÃO PAULO

    Deveria ser natural que soubéssemos mais o que se passa nas terras de nossos ancestrais

    Síria e Grécia se tornaram símbolos das duas famílias de crises que dominam a agenda mundial.

    São nesses países que a Primavera Árabe, de um lado, e o desastre financeiro, do outro, atingiram nível de paroxismo.

    Lá também a agonia se processa em câmera lenta, sem desfecho final à vista.

    Intriga que sejam justamente os berços da civilização ocidental os menos aptos a administrar desafios que nasceram da modernidade inventada pelo Ocidente.

    Primeiro o Iraque da Babilônia e da Assíria, depois o Egito, agora a Síria corredor entre essas culturas, a Grécia, a Itália, herdeira dos gregos e romanos, todas as fontes do que pensamos e somos dão a impressão de ruínas arrastadas pela correnteza.

    Dir-se-á que, afora a geografia, nada existe em comum entre esses locais e as antigas civilizações que nelas outrora floresceram.

    Ainda que fosse verdade, é inegável que o drama desses países nos toca mais de perto do que os conflitos na Bósnia ou no Afeganistão, lugares dos quais não sabemos grande coisa.

    Tratando-se de Portugal, da Espanha, da Itália e da nação de onde vieram muitos dos nossos árabes, deveria ser diferente.

    Graças a tradições e laços de família, à presença de comunidades importantes dessas nacionalidades, seria natural que houvesse mais empatia e solidariedade ou que revelássemos conhecimento mais profundo do que se passa nas terras de nossos ancestrais.

    Deveria ser, mas não é. Veja-se, por exemplo, o caso da Síria. Semanas a fio, a cidade de Homs esteve presente em todas as manchetes dos jornais.

    A cidade foi origem de muitas famílias sírias radicadas no Brasil e deu o nome a um dos clubes mais prestigiosos de São Paulo.

    A julgar, porém, pelo silêncio em torno da batalha que castigou a localidade, ninguém suspeitaria que existisse aqui um vínculo qualquer com Homs.

    Por que o silêncio, não só dos sírios, mas também dos libaneses (devido às afinidades)? É que na Síria o conflito não se esgota na dimensão democratas contra ditadura.

    Há, como no Líbano, no Egito e no Iraque, um problema entre comunidades. O governo sírio está há décadas em mãos da minoria alauita, contestada pela maioria sunita.

    Outras minorias, como os cristãos, se sentem mais seguras sob o governo de uma minoria.

    Sírios e libaneses vindos para o Brasil eram, em geral, cristãos: maronitas, melquitas, ortodoxos.

    A memória das discriminações sofridas da parte da maioria sunita e as perseguições ora renovadas contra os cristãos no Egito e no Iraque não os encorajam a desejar a chegada ao poder novamente de uma maioria, sunita ou xiita.

    Os pais da democracia americana afirmavam que ela não era apenas o governo da maioria, mas a garantia dos direitos da minoria.

    No Oriente Médio, porém, a maior proteção vem da própria comunidade. Daí o provérbio alauita: “Se você está com Assad, está com você mesmo”!

    A fragmentação em comunidades antagônicas é uma das heranças das antigas civilizações.

    Compreender essa realidade complexa e, nesse ponto, sim, distante de nossa experiência será essencial para que o Brasil possa ajudar a superar os conflitos dessa complicada região.

    Publicado por jagostinho @ 18:57



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