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  • 15maio

    IGOR GIELOW – ENVIADO ESPECIAL A ABBOTTABAD – Folha de São Paulo

    O véu de silêncio imposto pelo governo paquistanês sobre Abbottabad tornou-se mais denso duas semanas após Osama bin Laden ter sido morto lá em uma ação de forças especiais americanas.

    Mas alguns detalhes surpreendentes, ouvidos pela Folha durante dias de conversas com moradores, levantam mais dúvidas sobre o que exatamente aconteceu no dia 2 passado.

    Três pessoas contaram a mesma história: o dono legal da casa em que ocorreu a ação, Arshad Khan, ofereceu a um vizinho a área externa do local para uma festa de casamento no ano passado, e foi visto circulando pela área para fazer compras duas semanas antes de os americanos chegarem.

    “Eu não fui convidado, mas conheço vizinhos que foram. Eles voltaram para suas vilas. São festas grandes, com mais de 50 pessoas, e o sr. Khan emprestou a área mais externa da casa para a celebração”, afirmou Riaz Rehman, 42, dono de uma loja de artigos de computação.

    Segundo ele, a festa ocorreu há cerca de um ano e seria uma “walima”, a última etapa do casamento -quando os noivos, que podem estar casados há meses, oferecem comida a convidados.

    Uma segunda testemunha, que está na casa de parentes numa cidade próxima, confirmou que conhecia convidados da festa, mas pediu para não se identificar.

    A Folha procurou registros do casamento nas duas mesquitas que cobrem Bilal Town, o bairro rural em que ficava a casa.

    Em uma delas, um sacerdote de nome Ibran, 28, confirmou que um de seus colegas fez a celebração, mas que ele também deixou a área após a ação.

    Disse que não haveria como levantar documentos -o fato de ter sido preso anteriormente três vezes por suposta ligação com extremistas parece não ter ajudado muito em sua disposição.

    “O sr. Khan era uma pessoa muito gentil, uma vez matou um bode para os homens que ergueram o muro, o que é raro. Mas não perguntávamos nada sobre a casa. O que sabemos é o que saiu nos jornais: havia crianças que se mostravam na área externa, elas falavam pashtu, uma van Suzuki vermelha ia e voltava, mas nunca vimos ninguém sair de lá”, diz Rehman.

    O levantamento de informações é precário. Um policial que abastecia jornais locais com dados nos dias seguintes ao ataque sumiu, na definição dos moradores.

    “Aqui não se pode falar nada, olhe em volta, os vizinhos mais próximos foram mandados para suas aldeias de origem. Só sei que ninguém acredita que Osama estava aqui”, diz o encanador Mohammed Aishef.

    Ele mora a uns 200 metros do complexo, que está interditado para jornalistas desde sábado retrasado.

    Ele disse que a informação que a polícia local comentava era de que Khan tinha matado uma pessoa na região de Charsadda e resolveu se encastelar naquela vizinhança.

    “A casa é igual às outras daqui. Mas aqueles muros altos com arame farpado e as câmeras, isso era estranho. Não tinha fio de telefone ou prato de satélite também”, diz outro vizinho, Mohammad Zaid.

    Seu filho era um dos que jogava críquete, esporte que está para o paquistanês como o futebol está para o brasileiro, no terreno adjacente à casa.

    “Sempre que a bola caía lá, não deixavam entrar. Vinha uma criança com 50 rupias (cerca de R$ 1) e compensava o garoto”, conta.

    O que é mais intrigante é imaginar que a versão do casamento seja exatamente o que esses vizinhos dizem. Por que alguém escondendo o homem mais procurado do mundo faria uma festa em seu quintal?

    A principal especulação é de que Khan, que teria dito a seu jardineiro Nazar que era comerciante de ouro, seja o mensageiro de Bin Laden, Abu Ahmed al Kuwaiti.

    Nesse caso, e acreditando na versão ouvida pela Folha, por que ele iria comprar vegetais na venda da esquina.

    “Eu o vi aqui umas vezes”, é o que diz o garoto Qasim, 17 anos, que trabalha no mercadinho, sem mais detalhes.

    O governo paquistanês diz que Khan não existe legalmente. No cartório de Abbottabad, um funcionário disse ter a certidão de posse da área desde 2005 por Khan, mas não permitiu que fosse tirada uma cópia “porque as agências [de inteligência] estão nos vendo”.

    O sacerdote Ibran deu sua entrevista dentro do carro, rodando, pelo mesmo motivo.

    Outro sacerdote, responsável por pregar de porta em porta uma vez por mês e poderia falar sobre a casa, insultou a reportagem quando abordado.

    “Se chama capitão Muhammad, foi do Exército”, resumiu um morador.

    Esse é o clima na cidade que pode ter sediado o marco final da antiga “guerra ao terror”.

    Medo, desconfiança, versões conflitantes e só uma certeza: de que ainda falta elucidar muita coisa.

    Publicado por jagostinho @ 18:35



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